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Full text of "Revista gregoriana."

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LIBRARYOF PRINCETON 

I 

JUN 1 O ?004 I 

THEOLOGICAL SEMINARY 

PER BX1970.A1 L513 
Revista gregoriana. 


Digitized by the Internet Archive 
in2016 


https://archive.org/details/revistagregorian1059inst 




ANO 

etembro — 
1963 





JAN £S 1981 ^59-50 

•^Loeict 


10 ANOS 2 

OLHA PARA A ESTRÊLA, CHAMA 
POR MARIA 5 

HOMILIA SÕBRE O EVANGELHO: 
“MISSUS EST” 10 

PAULO VI E A LITURGIA 21 

SENTIDO COMUNITÁRIO DA 
SAGRADA LITURGIA 26 

UM PIONEIRO DA MÚSICA INDIANA 
A SERVIÇO DA IGREJA 41 

VIDA DO INSTITUTO 46 

CRÓNICAS RADIOFÓNICAS (D.J.E.E.) 

João XXIII e as quatro colunas da 
Paz 52 

Liberdade, para que ? 5^i 

Interlúdio sôbre a Liberdade: 

Pasternak 58 

A mentira apresenta seu pai 00 

Paulo VI, nôvo Pedro 63 

A coroação no 4P Domingo depois 
Pentecostes 65 

A missão da Igreja na palavra de 
Paulo VI 67 

Os milagres e o milagre da Ressur- 
reição 68 

O auxilio que pedimos a Deus 70 

Madre Joana dos Anjos 72 


REVISTA 

GREGORIANA 

(Reg , e* S6«) 

(Edição portuguesa da Res-ue Grégorteoae de Soiesmes) 
Diretores: D, J Gajard e A Le Gueunant 


Sagrada Escritura — Canto Gregoriano — Liturgia — Espiritualidade. 

Método Ward 

ÓRGÃO DO 

^NSTITUTO P/O X DO RIO Df JANEIRO 


Diretor; D .loão Evangelista Euout O 6 B 
Vice-Diretor: Irmã Marle-Rose Porto O F 

RUA REAL GRANDEZA, 108 — BOTAFOGO — TEL 26-1822 


» — Tudo que se refere a REDAÇAO ou a ADMlNISTRAÇAO (as- 
sinaturas, mudanças de enderéço, reelamações etc...) deve ser 
»-> endereçado à Diretoria do INSTITUTO PIO X DO RIO DE 
JANEIRO: Rua Real Grandeza, 108 ~ Botafogo, Rio de Joneiro. 

— ASSINATURA ANUAL, (Janeiro a Janeiro) — Tira- 
gem bimestral — Para o Brasil: CrS 500,00 — Para 
»=>o Estrangeiro: CrS 800,00 — Número avulso: CrS 
100,00 — Via aérea: Cr$ 800,00 para o Brasil ■ — 
Mudanc^a de enderéço: CrS 10,00. 

• — A REVISTA GREGORI.AN.ã c enviada, por direito, aos Sócios 

do INSTITUTO PIO X DO RIO DE JANEIRO 
‘ — Os pagamentos são feitos por Vale Postal ou cnequc, em nome da 
Diretoria do INSTITUTO PIO X Rua Real Grandeza, 108 — 
Botafogo — Kio dc Janeiro. (£ grande favor endereçar para 
a AGÊNCI.V do CORREIO de BOTAFOGO) O cheque bancário 
pagável no Rio. 

' — Inscrevam-sc como Sócios do INSTITUTO PIO X DO RIO DE 
JANEIRO; serão sempre avisados sóbre tõdas as suas atividades 
(aulas dc liturgia, conferencias. Missas Cantadas, etc.) t do mo- 
vimento gregoriano em gerai; darão um grande auxilio à irra- 
diação da Obra Gregoriana no Brasil. Esperamos de sua caridade 
a inscrição coroo: 

Sócio titular — CrS 500,00 por ano; 

Sócio Protetor — CrS 800,00 por ano, 

Sócio Fundador — CrS 1 .000,00 por ano, 

Sócio Benfeitor — Cr$ 2.000,00 por ano... ou mais 

* — Assim também a Revista "PERGUNTE E RESPONDEREMOS”. 

Assinatura: CrÇ 500,00. Via aérea CrÇ 780,00 — • Para * Estran- 
geiro: Cr$ 780,00 — Número avulso: Cr$ 50,00 (atrazado: CrÇ 
65,0(1) ' — Mesmo endereço acima , 



o Verbo se fez corne e 

Habitou entre nós 


“Paremos e contemplemos, não apenas de pas- 
sagem, o fulgor dessa Luz tão grande. 

Repetindo as palavras do apóstolo: 

É BOM ESTARMOS AQUI 

É bom contemplar docemente em silêncio o que 
muitas palavras não conseguem exprimir”. 

(S. BERNARDO) 

ESCOLA SUPERIOR DE CATEQUESE 

MATER ECCLESIAE 

(ZONA SUL) 

Rua Real Grandeza, 108 Tel. 226-1822 

Botafogo - GB. ZC-02 


— 1 — 



Com 0 presente número duplo, o último de 1963, a 
REVISTA GREGORIANA completa a publicação de 60 nú- 
meros e o seu décimo aniversário de existência. 

Fundada como uma continuação do “Boletim” para ser 
órgão do INSTITUTO PIO X DO RIO DE JANEIRO, ela vem 
íazendo fielmente com que suas páginas acompanhem o 
cam.inhar do INSTITUTO nas dimensões e com a amplitude 
de uma verdadeira revista e não apenas de um boletim. 

Muita coisa tem acontecido nêsses 10 anos, desde que a 
REVISTA GREGORIANA, como aliás o próprio INSTITUTO, 
foi lançada no ambiente brasileiro, ainda pouco acolhedor 
para com tais empreendimentos, principalmente no facilitar- 
lhes a perseverança e, ainda mais em se tratando de uma 
atividade que une as culminâncias da cultura e vida litúr- 
gicas com as da música em sua pureza melódica, ritmica e 
vocal a serviço da Oração. 

A REVISTA e o INSTITUTO têm tido, como é natural, 
no decurso dêsses 10 anos, suas horas mais dificeis. Tudo, 
porém, mesmo estas, tudo contribui para que se firme a con- 
vicção de que há vida e há motivo e fôrça para viver. 
Enquanto há vida há crescimento e fecundidade como expres- 
são inequívoca das Bênçãos Divinas. O INSTITUTO vê as- 
sim suas ESCOLAS REGIONAIS de Pôrto Alegre, São Paulo, 
Belo Horizonte que brotaram do centro do Rio de Janeiro, 
se espalharem e florescerem com seus cursos permanentes, 
com suas magníficas “semanas gregorianas”, com seus qua- 
dros próprios de regentes e professores, lenta e solidamente 
formados, com plena competência na difícil e sublime arte 
de interpretração gregoriana, sem precisarem sair do País, a 
serviço da oração cantada nos Seminários, nas Comunidades 
Religiosas, enfim nas igrejas de nossa Pátria. A REVISTA 
procura colaborar nessa obra do INSTITUTO que encontra- 
mos consagrada no Concílio Vaticano II, quando se exprime 
em uma de suas emendas aprovadas e promulgadas: “A tra- 
dição musical de tôda a Igreja constitui um tesouro de valor 
inestimável, que é uma expressão de arte excelente entre as 
demais, principalmente porque o canto sacro, baseado nas 
palavras, faz parte necessária ou integrante da Liturgia 


2 


Solene’'. E ainda: “São recomendados INSTITUTOS 

SUPERIORES DE MÚSICA SACRA, que devem ser erigidos 
oportimamente’’. 

Tem insistido sempre a REVISTA em encarar êsse seu 
serviço ao Cante Sacro, dentro de um quadro de interesse 
marcadamente litúrgico, escriturístico, patristico, sendo que 
a própria visão litúrgíca das questões habilita a uma 
penetração em todos os campos da vida crista, sob o amplo 
titulo de Pastoral. Por tudo isso, a REVISTA GREGORIANA 
sendo uma revista de canto, quer e deve ser uma revista 
que não exclui mas positivamente se interessa por LITURGIA 
dentro do gigantesco quadro e da estrutural significação em 
que ela deve ser concebida, como ainda ao feenar a 2 .^ etapa 
do Concílio, 0 afirmou magnificamente Paulo VI: 

“Um dos temas, o primeiro que foi examinado, e em 
certo sentido o primeiro também pela excelência intrínseca 
e por sua importância para a vida da Igreja, o da Sagrada 
Liturgia, foi terminado e é hoje promulgaao por nós soiene- 
mente. Estamos satisfeitos com este resultado. Rendemos, 
nisto, homenagem à escala de valores e deveres: Deus em 
primeiro lugar; a oração, nossa primeira obrigaçao; a Litur- 
gia, a primeira fonte da vida üivina que se nos comunica, 
a primeira escola de nossa vida espiritual, o primeiro dom 
que podemos fazer ao povo cristão, que conosco crê e reza. 
E justo que apreciemos como um tesouro êste fruto de nosso 
Concilio, como algo que deve animar e caracterizar a vida 
da Igreja. É, com efeito, a Igreja uma sociedade religiosa, 
é uma comunidade orante, é um povo florescente de inte- 
rioridade \e espiritualidade promoviaas pela fé e pela graça”. 

Ao completar 10 anos de vida, encontra a REVISTA 
nesta promulgação da renovação da vida litúrgica a grande 
meta que sempre foi e será a sua. Rendendo Graças a Deus 
por 10 anos vividos sob a paternal aprovação de nosso Car- 
deal Arcebispo Dom Jayme de Barros Câmara, agradecendo 
a S. Emcia. e a todos os que a ajudaram, incentivaram e 
com ela colaboraram, sente-se a REVISTA GREGORIANA, 
contando com tais Patronos e com tais horizontes, lançada 
para os grandes caminhos da Igreja em nossos dias. 


ANOS 


— 3 — 









OJI/IHIA ü esTRein 

<L^J1 11”(Í})11^ moRin 


É a palavra famosa de São Bernardo, numa página que 
Pio XII qualificou como “talvez a mais bela jamais escrita 
em louvor à Virgem Mãe de Deus, a mais ardente, a maif 
apta para excitar em nós o seu amor, a mais útil para fo- 
mentar nossa piedade e levar-nos a imitar seus exemplos de 
virtude” ( M • 

Nela se termina tõda a longa Homilia que apresentare- 
mos a seguir. Depois de desenvolver uma meditação muito 
rica sôbre as glórias de Nossa Senhora — sua predestinação 
especialissima, sua humildade, sua preparação profética nos 
múltiplos oráculos e figuras do Antigo Testamento — o Santo 
Doutor como que transfigura seu discurso ao ter de resumir, 
enfim, o que significa para nós, peregrinos, exilados, o nome 
de Maria . . . E faz jus mais uma vez ao título de “músico 
de Maria”, “cantor de Maria”. A Virgem significa para 
nós a Estréia refulgente com a qual o Senhor quis iluminar 
a nossa noite, conduzir a nossa rota. Ela simboliza todo 
0 ideal e tóda a esperança cristã. Não se aparte seu nome 
de nosso coração, não se ausente de nossos lábios. Nos 
perigos e nas angústias, fitemos a Estréia, chamemos por 
Maria. Se quisermos chegar ao pôrto, imitemos e invo- 
quemos Maria. 

Nessa fervorosa convicção sôbre o lugar insubstituível 
que deve ocupar a Virgem em nossa espiritualidade, São Ber- 
nardo é porta-voz da mais autêntica tradição católica. O en- 
raizamento profundo que suas exortações têm na história 
da piedade e no dogma cristão, eis o que gostaríamos de 
recordar sumàriamente aos leitores, nas linhas seguintes. 


íl) — Encíclica do 8, centenário da morte de Sâo Bernardo (1953). 


— 5 — 


OLHA 


PARA 


A 


E S T R Ê L A 


Primeiramente, o culto da imitação de Maria. São Ber- 
nardo propõe a Virgem como norma de santidade, na figura 
da “Estréia” e em expressões como esta: “seguindo-a, não 
erras”. 

Nada de nôvo ou puramente sentimental no tema. É 
doutrina antiquíssima na consciência cristã, embora nem 
sempre tenha tido o desenvolvimento que lhe deu São Ber- 
nardo. Quase tão antiga, diriamos, quanto a revelação de 
que Maria é a “Cheia de graca” (Lc 1,28). 

Já nos primeiros séculos Nossa Senhora era o paradigma 
de santidade aue todos evocavam inseparàvelmente unido ao 
mistério da Encarnação. Professar que Cristo nasceu “do 
Espírito Santo e da Virgem” equivalia a dizer que êle “assu- 
miu uma santa carne de uma santa Virgem” ( ® ) . E como 
essa profissão se fazia no momento do Batismo, era fácil de 
ser associada ao sacramento, como se contivesse a própria 
idéia exemplar do renascimento batismal. Na mesma luz se 
focalizava então a santidade da Virgem ( ® ) . 

Na verdade, porém, foi principalmente entre os ascetas 
e as virgens aue se desenvolveu a espiritualidade da imitação 
de Maria. Indício encontramos naquela célebre pintura das 
Catacumbas de Priscila íséculo III), aue retrata a cena litúr- 
gica de luna imposição de véu e onde Maria é apontada como 
exemplar à virgem aue se consagra. 

Pouco mais tarde, dirá Santo Ambrósio às virgens de 
Milão: 

“Imitai Maria, filhas . . . recebei o orvalho espiritual 
dessa Nuvem . . . Segui a boa Nuvem, que gerou dentro de 
si a Fonte, pela qual é irrigada tôda a terra” (•*). 

Ê dêle igualmente a admirável palavra, recordada por 
São Pio X, na encíclica “Ad diem illum”: “Tal foi a vida 

de Maria que constitui, para todos, modêlo” (®). 

Depois, não só por sua virgindade, mas pela eminência 
de tôdas as suas virtudes foi sendo cada vez mais exaltada 
a função exemplar de Nossa Senhora, nos escritos dos Padres. 
Èles diziam mesmo que ela era o “tipo”, a “figura” da Santa 
Igreja, apelando não raro para o texto do Apocalipse sôbre 


Í2) — Santo Hipóllto, De Antichr., 5; PG 10, 732. 

' 3) — Cf. nosso artigo “O culto de Nossa Senhora nos quatro primeiros 
séculos da Igreja”. Revista Gregoriana 41/42 (1960), 5-15. 

(4) — Dei inst. virg., c. 14: PL 16, 340. 

-5) — - “Talis enim fuit Maria, ut ejus unius vita omnium sit disciplina”. 
De vlrginibus, 1.2, c.2: PL 16, 223. 


_ 6 — 


C I R 1 L o 


FOLCH GOMES 


O. S. B. 


D . 


a “Mulher revestida com o sol”, onde divisavam a imagem 
de TVlaria com os traços da Igreja. 

A partir, porém, da Idade Média é que se desenvolveu 
a reflexão particularizada — e num plano psicológico — das 
várias virtudes da Santíssima Virgem atestadas na história 
evangélica. É própriamente quando toma corpo a espiritua- 
lidade da “imitação de Maria”, paralelamente à “imitação de 
Cristo”. 

A base teológica de tôda essa grande doutrina, vivida e 
amada pela intuição cristã, reside evidentemente na seme- 
lhança que existe entre Maria e Cristo. Porque Cristo 
é o exemplar absoluto da santidade humana, dado que é 
“a imagem do Deus invisível” ( “ ). Mesmo como homem êle 
é “o Verbo de Deus” ( M . a ponto de se poder afirmar que 
tôdas as suas atitudes e gestos significam, para nós, “formas 
humanas dos atributos divinos” ( ■ ) . 

Ora, Maria foi predestinada, nas raizes mesmas de seu 
ser, a tornar-se a Mãe de Cristo, isto é, a criatura cujos tra- 
ços haveriam de modelar, até certo ponto, os traços humanos 
do Verbo feito carne. Se São Paulo podia dizer-nos; “Sêde 
meus imitadores como eu o sou de Cristo” ( « ) , quanto mais 
Aquela cuja santidade Deus planejou na mesma idéia com 
a qual predestinou a Encarnação da Sabedoria? Na fé cató- 
lica a santidade da Virgem é concebida como um reflexo tão 
admirável da divina Graça que a Liturgia não hesita em 
aplicar-lhe o que a Bíblia diz da própria Sabedoria incriada; 

“Eu sou a mãe do belo amor, do temor, da ciência e da 
santa esperança. Em mim está a graça do caminho e da 
verdade, em mim tôda promessa de vida e virtude. Quem 
me escuta não será confundido, os que agem por mim não 
pecarão” ( ’" ) . 

Veja-se concretamente, nos Evangelhos, como Cristo é re- 
fletido e até antecipado na vida, nos sentimentos, na men- 
talidade de Maria. Antes do “Servidor de Jahveh”, manso 
e humilde de coração, ela já se diz a “ancilla Domini”, cujo 
programa é simplesmente um “fiat” à vontade de Deus. Vive 
desde sempre a virgindade, a contemplação, as obras de mi- 


<6) — Col. 1,15. 

(7) — 1 Jo 1,1; Apoc. 19,13; Jo 1,18. 

(8) — A expressão é de Sertillanges, cit. em Delhaye. “Jésus Christ raison 

de croire . . ETL 1951, dg. 8. 

(9) — 1 Cor 4,16. 

\10) — Eccli 24,23s. 


7 — 


CHAMA 


POR 


MARIA 


sericórdia . . . Preludia no “Magnificat” quantos pontos do 
Sermão da montanha ! . . . 

Mas não nos basta imitar, é preciso invocar Nossa Se- 
nhora; “invocando-a nao desesperas”, diz Sao Bernardo em 
nossa Homilia. 

O culto de invocação também se perde nos horizontes 
da história ... É do século III, dizem os especialistas, a prece 
ardente que até hoje recitamos nos momentos de afliçao, o 
“Sub tuum praesidium confugimus ...” 

Na invocação de Maria, como na dos Santos, nós recor- 
remos à sua intercessão junto a Deus, pois é só dÊle, Fonte 
dos bens, que recebemos, últimamente, o que pedimos . Deus, 
que na execução de Sua Providência, se utiliza das causas 
segundas, quer conceder-nos muitos bens em resposta aos 
merecimentos de seus Santos . Ora — perguntaria aqui o 
Papa Leão XIII, na enciclica “Augustissimae Virginis” — 
quem dentre os habitantes celestes pode competir com a 
Mãe de Deus no certame dos merecimentos ? 

Nossa invocação baseia-se, pois, na intercessão de que é 
capaz Nossa Senhora e que é, como ensinam unânimemente 
os teólogos, universal, estendendo-se a tôdas as graças: 
Maria é a Medianeira de tôdas as graças. São Bernardo já 
o professava bem claramente: 

“Nada quis Deus que recebêssemos senão através das ’ 
m*ãos de Maria” ( ” ) • 

E que há de admirar nisto, se Deus quis dar-nos Seu 
próprio Filho Unigénito como um fruto das entranhas da 
Virgem ? Se Êle quis chamá-la à graça de associar-se inti- 
mamente à obra de Seu Filho, isto é, à Redenção, à aqui- 
sição de tôdas as graças ? Se Êle quis que o mesmo Re- 
dentor lhe atribuísse, naquele momento supremo do Calvá- 
rio, o título de Mãe dos discípulos, ou por outras palavras, 
o ofício de continuar zelando, como Mãe, pelo destino dos 
que ela deu à luz ? 

No Céu, Maria continua, portanto, sua missão de Sócia 
do Cristo Redentor. E assim como Êle permanece lá o nosso 
Advogado junto do Pai ( '- ), sempre vivo para interpelar por 


(11) — “Nihil nos Deus habere voluit quod per Mariae- manus non transi- 

ret”, In vig. Nativ. Domini, III, 10; cl. também In Natiú. 7; 

PL 183, 441. 

(12) — 1 Jo 2,1, 


_ 8 — 


D. CIRILO FOLCH GOMES O.S.B. 

nós ( ) , o Cabeça do Corpo Místico, que nos comunica sem 
cessar a fôrça de seu Sangue redentor, Maria permanece 
também animada com a mesma caridade do Calvário, “Advo- 
gada nossa” e “Aqueduto” — como diria São Bernardo — 
por meio do qual nos chegam os dons da salvação. Na quali- 
dade de Medianeira junto ao Mediador, ela comanda o côro 
de preces de tôda a Comunhão dos Santos. Tôdas as súpli- 
cas se apoiam na sua súplica de Rainha, de sorte que se 
um dia cessasse a sua . . . tôdas as outras cessariam ( ^^ ) . 
Mas Nossa Senhora nunca cessa de suplicar! Ela intercede 
por sua própria presença, pela presença de seu Coração. Sim, 
mas e também pelas orações expressas que lhe sugere o 
conhecimento expresso de cada uma de nossas necessidades 
e preces, na misteriosa visão de Deus. Ela não cessa de 
mostrar que é nossa Mãe. “Monstra te esse Matrem !” 


(13) — Heb 7,25. 

(14) — Cf. Santo Anselmo: “Te tacente, nullus orabit, nullus juvabit Te 

orante, omnes orabunt, omnes juvabunt” (Oratio 46: PL 158, 944). 



— 9 


SÃO BERNARDO 

UOiHlUA 

svhre e KVANGKLUO 

“MISSUS EST” 

(N°. 2) (Lc 1,26-38) 


M inguéni duvida, por certo, de que o cântico nòvo que só às virgens 
será dado cantar no reino de Deus, cantá-lo-à também a Rainha 
das virgens, com as demais, ou melhor, à frente de tôdas. 

Porém, além dêsse cântico que só às virgens compete e que Ela 
cantará cm comum com tôdas, penso que alegrará a cidade de Deus com 
outro ainda mais doce e harmonioso. Nenhuma das outras será achada 
digna de cantar ou exprimir as suas modulações dulcíssimas, só a Ela 
será re.servado cantá-lo, pois só essa \'irgem possui a glória do parto, e 
de divino parto. 

Dir-se-ia que se .gloria desse parto; não em si, mas n’ Aquele a quem 
deu a luz. Em Deus, pois foi a Deus (jue ela deu à luz. 

Havendo de glorificá-la de um modo singular nos Céus, cuidou Êle 
de orná-la de antemão com uma graça singular na terra, pela qual, de 
modo inefável conceberia, permanecendo íntegra, e, incorrupta, daria 
à luz seu filho. A Deus convinha um nascimento assim, em que não nas- 
ceria senão da \'irgem ; e à Adrgeni um parto como êsse, em que daria à 
luz o próprio Deus. Eis porque o Criador dos homens, a fim de se fazer 
homem, estando para nascer do homem, deveria escolher entre tôdas, mais 
ainda, deveria criar para Si uma Mãe como sabia ser- lhe digna e agradá- 
vel. Quis, pois, que fósse uma virgem imaculada, da qual sairia, imaculado, 
quem expiaria as máculas de todos ; quis Que também fósse humilde, pois 
d’Ela sairia Aquêle que é manso e humilde de coração e que nos mostra- 
ria em Si o necessário e salubérrimo exemplo dessas virtudes. 


10 — 


SÃO BERNARDO 


Deu então o parto à Virgem qucMu já antes llie inspirara o anhelo da 
virgindade e llie mostrara o mérito da liumildade. 

De outra sorte, como a chamaria o Anjo “cheia de graqa’’ se tivesse 
Ela qualquer coisa de bom que lhe não viesse da graqa ? , 

AquelaE pois, que haveria de conceber e dar à luz o Santo dos san- 
tos, recebeu o dom da virgindade para ser santa de corpo, e o da humil- 
dade para ser santa de alma. 

Adornada a Virgem régia com tais gemas de virtudes, refulgindo 
])ela dupla beleza da alma e do coiqK), atraiu o olhar dos cidadãos do Céu, 
quando se lhes tornou conhecida sua a]iarência e íorniosura, de tal modo 
(pie inclinou para si o ânimo do Rei e atraiu das alturas o mensageiro 
celeste. R é isto o que o Evangelista nos sugere (juando diz (pie o anjo 
foi enviado ]íor Deus à Virgem; “i)or Deus”, diz, “à \’irgem”; isto é, 
pelo Excelso à humilde, jielo Senhor à serva, pelo Criador à criatura. 
Como é grande a condescendência de Deus ! Como é .grande a dignidade 
da \'irgem ! 

Acorrei, ó mães; acorrei, filhas; acorrei todas vós cpie depois de 
1'Aa e por causa de Eva viestes à luz com tristeza e na tristeza dais à 
luz. Ide ao tálamo virginal; entrai, se ])odeis, no cubículo i)uro de vossa 
irmã. Pois eis que Deus envia um mensageiro à \’irgem ; eis que o Anjo 
fala a Maria. Colocai o ouvido junto à parede, auscultai o Que lhe anun- 
cia êle, como que para tentar perceber algo com que talvez vos consoleis. 

Alegra-te, pai Aílão, porém ainda mais tu, ó mãe Eva, exulta; vós, 
ambos, assim como gerastes a todos, a todos fulminastes com a morte e, 
o (pie é pior, sois primeiro homicidas c de[)ois pais. í\las consolai-vos, 
digo, em vossa filha, nessa Filha; princii)<dmente console-se Eva, por 
C|uem o mal nasceu primeiro e cujo opróbrio passou a tódas as mulheres. 
Pois eis que chega o tempo em que o oi)róbrio vai ser retirado, e já não 
poderá queixar-se o homem, da mulher; êle, que (pieren.jo imprudente- 
mente excusar-.se não hesitou em cruelmente acusá-la dizendo ; “A mu- 
lher que me deste, deu-me do fruto da árvore e o comí" ( Gen 

Eis porque, ó Eva, corre a Maria; corre, ó mãe, a tua Filha; res- 
ponda a Filha peTa mãe, afaste-lhe assim o opróbrio, satisfaqa ao pai em 
Iug;ar da mãe, pois se foi por causa da mulher cpie o homem caiu, não 
será agora senão por ela que se erguerá. 

Oue é que dizias, Adão? “A mulher (pie me deste deu-me do fruto 

da árvore e o comí’’. Palavras de malícia, com as (piais mais aumentavas 

(pie apagavas tua culpa. A Sabedoria, entretanto, venceu a malícia, 
quando Deus buscou no tesouro <le Sua inesgotável jiiedade aipiêle en- 
sejo de perdoar quem tentara em vão obter de ti, ao te interrogar. 

É restituída, portanto, uma Mulher ]iela mulher, uma prudente em 
vez da tôda, a humilde pela soberba! alguém que te proporcione o sabor 

da viida e não o fruto da morte, alguém que em troca do venenoso ali- 

mento da tristeza gere a do<;ura do fruto eterno. 

Transforma, pois, tua palavra inícpia de acusac^ão em a<;ão de graqas 
e diz: “Senhor, a mulher que me deste deu-me da árvore da vida e 


11 


•‘MISSUS EST” 

comí; e o fruto tornou se em minha boca mais doce que o mel, porque 
Tu me vivificaste.” 

Eis para que foi enviado o Anjo à Virgem! Ó admirável e sempre 
digníssima V'^irgem ! Mulher singularmente venerável, admirável entre 
tôdas, reconciliadora de teus pais, vivificadora de teus pósteros ! 

“Foi enviado o Anjo á Virgem”, diz o evangelho. À Virgem que 
era virgem na carne e virgem no espírito, virgem por profissão, virgem 
enfim como descreve o Apóstolo, santa de corpo e de alma ; não como 
que achada ao acaso ou improvisada, mas eleita desde o princípio, pré- 
conhecida do Altíssimo, e para Êle preparada; resguardada pelos Anjos, 
pré-significada desde nossos primeiros pais, prometida pelos profetas. 
Investiga as Escrituras e vê o que estou dizendo. 

Queres que aponha aqui alguns testemunhos das Escrituras? Para 
dizer muito em poucas palavras: que outra mulher (que não Maria) te 
parece ter Deus predito quando afirmou à serpente : “Porei inimizades 
entre ti e a mulher”? Se ainda duvidas de que o tenha dito de Maria, 
ouve o que se segue: “Ela te esmagará a cabeça” (Gen. 3,15). A quem 
coube tal vitória senão a Maria? Ela — sem dúvida — esmagou a ca- 
beça venenosa, pois aniquilou tôdas as multiformes sugestões do demô- 
nio, tanto as dos prazeres da carne como as da soberba da mente. 

E Que outra mulher procurava Salomão quando dizia: “A mulher 
forte quem achará?” 

Com efeito, o sábio conhecia a fraqueza dêsse sexo, frágil de corpo, 
inconstante de mente. Dado porém que lêra tê-la Deus prometido, e 
porque lhe parecia convir ser vencido pela mulher o que por ela vencera, 
dizia com veemente admiração: “A mulher forte, quem a achará?” O 
cpie equivale a dizer: “Já que a salvação nossa e a de todos, a restituição 
ila inocência e a vitória sôbre o inimigo dependem da mão da mulher, é 
absolutamente necessário que seja produzida uma mulher capaz de tão 
grande obra. Mas, quem achará a mulher forte?” 

E para que não se pensasse que a procurava desesperançado, acres- 
centa profetizando : “O seu valor excede tudo o que vem de longe e dos 
últimos confins da terra” (Prov 31,10) ; isto é, seu preço não é vil, não 
é pequeno nem medíocre, não é enfim da terra, mas do céu, e não do 
céu mais próximo da terra, mas é do mais alto dos Céus que Ela desce. 

E depois, que prénunciava aquela sarça mosaica, outrora, flamejando 
mas não se consumindo (Ex 3,2), senão Maria dando à luz sem sentir 
a dor? Que significava, pergunto, a vara florescente e não orvalhada, de 
.Aarão (Num 17,18), senão Maria concebendo sem conhecer varão? O 
maior mistério dêsse grande milagre foi explanado por Isaias, ao dizer: 
“Sairá uma vara da raiz de [essé, e uma flor brOtará <!e sua raiz” 
(Is ii,i): entendendo a vara como figura da \’irgem e a flor, o filho 
da Virgem. , 

Mas se te parece que, entendendo-se na flor o Cristo, haja oposição à 
sentença mais acima em que Êle era designado não pela flor da haste 
mas pelo fruto da flor, fica sabendo que, na mesma haste de 1 


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SÃO 


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floresceu, cobriu-se de folhas e frutificou), Cristo é significado não ape- 
nas {K;la flor ou pelo fruto mas ainda pelas próprias folhagens. 

Fica sabendo que foi indicado, em Moisés, não pelo fruto nem pela 
flor mas pela própria haste; sim, por aquela vara com que, percutindt), 
dividia a água aos caminhantes ou a fazia jorrar da pedra aos sedentos 
(Ex 17,16). Não há inconveniente nenhum em que Cristo, sob aspectos 
diversos, seja figurado por coisas diversas. Se se vê no galho designaxlo 
o seu poder, na flor será seu perfume, no fruto a doçura de seu sabor e 
nas folhagens a sua proteção diligente, que o faz não deixar de acolher 
aos pequeninos que se refugiam à sombra de suas asas para se livrarem 
do ardor dos desejos carnais ou da face dos ímpios que os afligem. Bóa 
e desejável a sombra das asas de Jesús, abrigo seguro para os trânsfugas, 
refrigério agradável para os fatigados. Tem misericórdia de mim, pois 
em ti confia a minha alma e na sombra de tuas asas esperarei até que 
passe a iniquidade. (SI 56,2). 

No testemunho acima referido, de Isaias, entenda-se, contudo, a 
flor como significando o Filho e a vergòntea a Mãe; pois assim como 
o galho floresceu sem semente, a Virgem concebeu sem concurso de 
homem. E se a emissão da flor não diminuiu o verdor do galho, também 
o parto da santa criança não diminuiu o pudor da Virgem. 

Vejamos ainda outros testemunhos da Escritura a respeito da Vir- 
gem Mãe e de seu Filho. 

Que significa aquele vélo de Gedieão, que, cortado, é verdade, da 
carne, mas posto sem lesão da carne sôbre a eira e que uma vez ficou 
molhado pelo orvalho, ao passo que na outra vez ficou molhada a eira, 
que significa senão a carne assumida da carne da Virgem sem detrimento 
da sua virgindade? 

Sóbre aquela carne derramou-se realmente tóda a plenitude da di- 
vindade com o orvalho do Céu; de sorte due dessa plenitude nós rece- 
bemos, nós que somos sem ela apenas árida terra. 

Parece bem convir a êsse fato da história de Gedeão a palavra pro- 
fética que diz: “Descerá como a chuva sóbre o velo” fSl 71,6). Pois as 
palavras que se seguem: “e como as gôtas que se distilam sôbre a terra” 
parecem dizer o mesmo que a eira encontrada humedecida pelo orvalho. 
Assim, aquela CTiuva que é voluntária, destinada por Deus para a sua 
herança, primeiramente desceu sóbre o sêio da Virgem num cair silen- 
cioso. plácido, sem o estrépido da ação humana; depois, porém, difundiu- 
se por tóda a terra através da bôca dos pregadores, não mais como chuva 
sóbre o velo mas como as gôtas que jorram sóbre a terra, com o estré- 
pido de palavras, com o tumulto dos milagres. É que as nuvens que 
traziam essa chuva se recordavam do preceito recebido no momento de 
serem enviadas : “O que vos digo nas trevas, dizei-o na luz ; e o que 
ouvis no ouvido pregai-o sôbre os telhados” (Mt 10,27). Realizaram 
isto e eis então que “por sôbre tóda a terra correu o seu clamor e suas 
palavras chegaram às extremidades do orbe” (SI 18,5). 

Ouçamos depois a Jeremias, vaticinando coisas novas aos velhos, 
desejando ardentemente e prénunciando confiantemente que viria Aquele 


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“MISSUS EST” 

cuja presciK^a náo podia ainda ser mostrada: “Uma coisa nova criou o 
Senhor sóhrc a terra; uma mulher circundará um homem” ( jer 31,22}. 

()uem é essa mulher? Quem é êsse homem? Se é homem, como 
circundado por uma mulher? Se ijode ser circundado ])or uma mulher, 
como é um homem ? Para falar mais abertamente, como pode ao mesmo 
tempo ser homem e estar no ventre da mãe? Pois é isto o que significa 
um homem .ser circundado por uma mulher. Chamamos liomens aqueles 
(lue, tendo já atravessado a infância, a meninice, a adolescência e a mo- 
cidade. atingiram uma idade próxima da velhice. Quem, pois, sendo de 
tal modo crescido poderá ser circundado por uma mulher? 

Se dissesse: Uma mulher circundará uma crianqa, ou um menino, 
nadia haveria então de admirável ou de inaudito. Já, porém, que não 
falou assim, mas disse “um homem”, devemos indagar Qual seja essa 
novidade que Deus fez na terra, de uma mulher circundar um homem 
e de um homem se encerrar dentro do delicado corpo de uma mulher? 
Que prodígio é êsse? “Acaso ])ode o homem”, como diz Xicodemos, 
“reentrar no ventre de sua mãe e resnacer?” ( jo 3,1^) . 

Mas voltO'me para a concepção e o j)arto da \'irgem a vêr se entre 
as muitas coisas novas e admiráveis (jue aí encontra quem diligentemente 
procura, a vêr se encontro talvez também essa novidade de que fãla o 
])iofeta. Ora, ali o que se encontra é pequeno no coni])rimento, na lar- 
gura, na altura. Ê uma luz que não brilha, uma palavra que não fala, é 
a água <iue tem séde, é o pão que tem fome. O que se encontra é o 
])oder sendo governado, a sabedoria instruída, a fòrça sustentada. Deus 
enfim como um lactente, Ele que alimenta os Anjos; vagindo, Ele que 
consola os míseros. É a Alegria <iue se entristece, a Confiança que des- 
falece, a Fortaleza que está fraca. Mas também, e o (jue não é menos 
a(',mirá\el. ali encontraríamos essa mesma tristeza alegrando, o temor 
confortando, o sofrimento salva.ndo. a morte vivificando, a fraqueza forti- 
ficamlo. 

A quem já não ocorrerá, pois, o Que eu desejava? Acaso não será 
fácil reconhecer em tudo isto a mulher encerrando um homem, ao ver-se 
-Maria contendo em seu ventre a jesús, o Homem aprovado por Deus? 

Je.sús ])odia ser dito homem não apenas quando dêle se afirmou que 
ci'a “homem profeta, poderoso em obras e em palavras” (Uuc 24,19}, 
mas também quando a Mãe de Deus aquecia em seu colo ou gerava em 
seu ventre os membros ainda tenros da criança- Já era homem, Jesús, 
antes de nascer, não pela idade mas pela sabedoria, não i>elo vigor do 
corpo mas ])elo da alma. não pela cor])ulência dos membros mas pela 
maturidade de Sêü juizo. Pois Jesús não foi menos repleto <le sabedoria 
quando concebido, do que quando nascido; quando menino, tio que quando 
adulto. 

Quer oculto no ventre materno, quer vagindo no presépio, quer me- 
nino interrogando os dtoutores no templo, quer adulto ensinando às tur- 
bas, sempre foi igualmente cheio do Espírito Santo. N^ão houve momento 
em sua vida que tives.se menor ou maior aquela plenitude que recebera 
ao ser concebido no ventre de sua mãe. Desde o princípio foi perfeito. 


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SÃO 


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O 


desde o princípio pleno do espírito de sabedoria e inteligência, do espírito 
do conselho e da fortaleza, do espírito e da ciência e da piedade, do es- 
pírito do temor do Senhor (Is 11,2-3). 

Não te pertuhe o que les sôhre êle em outro lugar: “Jesus, porém, 
crescia em sabedoria, idade e graça, diante de Deus e dos homens” 
ÍLuc. 2,52). Porque o que se diz aqui da sabedoria c da graça deve-se 
entender não como realmente eram mas como apareciam, isto é, não se 
lhe acrescentava nada «pie já não tivesse, mas parecia, apenas, pro- 
gredir, e parecia-o quando êle o queria. 

Tu, 6 homem, quando cresces, nunca o consegues na medida e na 
época de teu desejo: teu crescimento é regulado e tua vida disposta sem 
saberes como. Mas Jesús, que dispõe a tua vida, dispõe também a Sua ; 
quando queria e a quem queria aparecia, ás vêzes como sábio, ás vêzes 
como muito sábio, ás vêzes como o mais sábio dos homens ; embora fôsse 
sempre, em si, o Sábio, por excelência. Assim também, embora sempre 
cheio de tòda a graça, tanto da que devia ter diante de Deus como da 
que o devia diante dos homens, mostrava-a, contudo, ora mais ora menos, 
conforme seu arbítrio, segundo achasse convir aos méritos ou á salvaçãr, 
dos que o viam. É certo, pois, que sempre teve Jesus ânimo viril, con- 
quanto nem sempre tivesse já a aparência de homem adulto. Enfim 
porque hei de duvidar de que tenha sido homem perfeito no ventre ma- 
terno Se não duvido que já aí tenha sido Deus? É menos ser homem do 
Que Deus. 

\'^êde, porém, se também Isaias não desvenda com grande lucidês 
essa novklade a que se refere Jeremias: Isaias, que havia pouco nos fa- 
lava sôbre as flores novas de Aarão. 

“Eis”, diz, “que a Virgem conceberá e dará â luz um filho”. A 
\'irgem, isto é, a Mulher. Queres também ouvir algo sôbre o homem? 
Continua o profeta: “E será chamado Emanuel”, isto é, Deus conosco 
(Is 7,14). Portanto a Mulher encerrando um homem é a Virgem con- 
cebendo a Deus. Vês quão bela e concordemente os admiráveis feitos e 
as místicas predições dos santos se harmonizam entre si. Vês que es- 
tupendo é êsse único inilagre operado com a \úrgem e na Virgem, pré- 
figurado por tantos outros prodígios e por tantos oráculos prometido. 

Na verdade toi um mesmo o espírito dos profetas, embora sob vá- 
rios modos, sinais e tempos! foram diversos os que previram e predis- 
seram a mesma coisa, mas num único Espírito. 

O que se mostrou a Moisés na sarça e no fogo, a Aarão na vara e 
na flôr, a Gedeão no velo e no orvalho, foi isso mesmo predito mais 
claramente por Salomão na mulher forte e em seu valor, mais lucidamente 
pré cantado por Jeremias no que disse da mulher e do homem, e mais 
aliertamente ainda por Isaias quando falou da Virgem e de Deus. Ga- 
briel, enfim, demonstrou-nos quem era essa Virgem, quando a saudou. 

Ê aquela de quem o evangelista diz: “Foi enviado o Anjo Gabriel, por 
Deus, a uma Virgem, desposada com José.” , 

“A uma \^irgem desposada”, diz. Por que desposada? Já que era 


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“MISSUS EST” 

uma Virgem eleita e. como foi referido, uma Virgem que haveria de 
conceber e de dar à luz, é de se admirar que fôsse desposada, pois deve- 
ria permanecer virgem. 

Dirá alguém que êsse desposório foi casual? Não é casual o que 
pode ter uma causa razoável, útil e necessária, uma causa inteiramente 
digna da obra do divino consêlho. 

Exporei aQuí o que me pareceu disto, ou antes o que pareceu aos 
Padres, antes de mim. A razão do desposório de Maria foi a mesma 
((ue a da dúvida de Tomé. 

Com efeito, era costume entre os Judeus que as noivas fossem en- 
tregues à guarda dos noivos desde o dia de seu desposório até ao tempo 
das núpcias, para que com tanto mais diligência guardassem sua hones- 
tidade quanto eram êles fiéis para consigo mesmos. Assim, pois, como 
Tomé, duvidando e apalpando, tornou-se um firmíssimo confessor da Res- 
surreição do Senhor, assim também José, desposando Maria e verifi- 
cando diligentemente sua vida no tempo da cústódia, tornou"se uma fi- 
delíssimo testemunha da Sua pureza. É bela a concordância dessas duas 
coisas, a dúvida de Tomé e o desposório de Maria. Em ambas poderia 
alguém lançar-nos o laço de um êrro semelhante, levando-nos a suspeitar 
da fé de Tomé e da castidade de Maria; mas muito sábia e piamente o 
que se dá é o contrário ; advém certeza firme <de onde mesmo se iria 
temer a dúvida. 

Pois eu, que sou fraco, acreditaria mais depressa na Resurreição do 
Filho de Deus sabendo que Tomé duvidara e apalpara do que em 
Cefas que ouvira e crera; e a respeito da continência de sua Mãe acre- 
ditaria mais facilmente no esposo que a garciou e observou do cjue na 
]<rópria \^irgem defendendo-se apenas com sua consciência. Dize-me, 
portanto, quem não a julgaria antes uma meretriz do que uma virgem, 
vendo-a não desposada e grávida? Ora, não convinha que tal coisa se 
dissesse da Mãe do Senhor. Seria mais tolerável e honesto que se pen- 
sasse durante algum tempo que Cristo nascera de um real matrimônio 
do que se pensasse que nascera da fornicação. 

Mas, dirás, não poderia Deus dar-nos um sinal claro pelo qual nem 
vSua origem fosse desacreditada nem Sua Mãe incriminada? Podia, sim; 
mas não ocultaria então aos demônios o que os próprios homens sabe- 
riam . Convinha, porém, que o sacramento do divino consêlho permane- 
cesse oculto algum tempo ao príncipe do mundo ; não que Deus temesse 
ser impedido por êle se desejasse realizar abertamente Sua obra; mas 
l)orque Êle. que não só poderosamente mas também sàbiamente fêz tudo 
o ((ue t|uís. assim como em tódas as Suas obras costumou observar as 
congruências das coisas e dos tempos em vista do esplendor da ordem, 
assim também nessa Sua obra magnífica, a da nossa reparação, não só 
(|uís mostrar o Seu Poder mas também a Sua prudência. E embora 
])udesse realizá-la do modo que bem desejasse, aprouve-lhe, contudo, 
reconciliar consigo o homem, da mesma maneira e na mesma ordem em 
(|ue caira êste : afim de que, assim como n demônio primeiro seduziu a 


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à o 


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mulher e depois venceu o homem pela mulher, assim fosse primeiro 
enganado pela Mulher Virgem e depois subjugado abertamente pelo 
Cristo Homem. Seria assim que o plano arquitetado pela piedade bur- 
laria a fraude da malícia e o poder de Cristo esmagaria a fôrça do 
maligno, manifestando-se Deus mais prudente e mais forte que o demônio. 

Era como convinha que a malícia fosse vencida pela Sabedoria es- 
piritual encarnada, de sorte a não apenas atingir esta tudo de fim a fim, 
fortemente, mas também suavemente dispondo todas as coisas. <Sap 8,i). 

Atingiu de fim a fim, isto é, do Céu ao inferno. 

“Se subir aos Céus, diz, o salmista tu estás; se descer aos abismos, 
estás presente” (SI 138,8). 

Em ambos os lugares agiu fortemente> pois das alturas expulsou 
c Soberbo e foi nos infernos que despojou o Avaro. Devia também sua- 
vemente dispor tudo, no céu e na terra ; ora expulsando de lá o inquieto, 
firmara na paz os restantes; e aqui na terra venceria o invejoso dei- 
xando-nos o necessário exemplo de Sua humildade e mansidão. Eis como, 
na admirável regulação da Sabedoria, Deus surgia suave para os seus e 
forte para os inimigos. 

Que nos aproveitaria se, \’encido o demônio por Deus, continuásse- 
mos soberbos? 

Assim, houve causas muito importantes para que Alaria desposasse 
a José, pois o santo era ocultado aos cães, a virgindade comprovada pelo 
esposo e tanto o pudor como a fama da A^irgem ficavam atendidos. Que 
mais sábio, que mais digno da Divina Providência ? Graças a essa Sua 
deliberação era admitida uma testemunha aos segredos celestes, o inimigo 
era excluído e a fama da Virgem se conservava intacta. 

De outro modo, como haveria o justo de poupar a adiiltera? Pois 
está escrito: “José, seu marido, como fosse justo e não a quisesse di- 
famar, intentou deixá-la ir secretamente'. (Alt 1,19). 

Sim, como fosse justo, não a quis difamar ; porque tanto não seria 
de nenhuma forma justo se pactuasse com uma comprovada ré, como 
se condenasse quem provadamente era inocente. Eis porque, sendo justo 
e não a querendo difamar, desejou deixá-la ir secretamente. Porque 
deixá-la partir? sôbre isto aceita uma reflexão que não é minha, mas 
dos Padres. 

José quis deixá-la ir pelo mesmo motivo porque Pedro repelira o 
Senhor, de si, dizendo: “Afasta-te de mim. Senhor, porque sou homem 
pecador” (Lc 5,8) ; pelo mesmo motivo por que também o Centurião o 
impedira de vir a sua casa: “Senhor, não sou digno de que entres sob 
meu teto” (Mt7,8). 

Assim, pois, também José, julgando-se indigno e pecador, dizia 
dentro de si não dever mais participar do convívio familiar com tal e tão 
grande pessôa, cuja dignidade, muito superior a sua, contemplava com 
assombro. Contemplava, e temia, aquela que levava em si mesma um 
sinal certíssimo da presença divina ; e. visto que não podia j^enetrar o 
mistério, queria deixá-la partir. 


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“MISSUS EST” 

Pedro temeu a grandeza do ])oder, como o centurião a majestade 
da i)resem;a (do Senhor). Atemorizou-se também, seguramente, José 
como liomem ((ue era. diante da novidade daquele tão grande milagre, 
da profundeza daquele mistério. Eis porque quis deixá-la ir secretamente. 

Admiras que José se julgasse indigno do convívio com a \drgem 
gestante, se ouves que Santa Isal)el não pôde suportar sua presença senão 
com tremor e reverência? Disse ela; “Donde se me dá que venha a mim 
ac|uela que é Mãe do meu .Senhor?” (Euc 1 , 43] . Portanto, também 
José quis deixá-la partir. 

Mas porque às ocultas e não publicamente? Para que não se viesse a 
inquirir a causa e a razão do divorcio. Pois que haveria de respom’er 
o justo ao povo de cerviz dura, ao povo incrédulo e contraditor? Se 
dissesse o que sentia no intimo, o que já comprovara sòbre a pureza dela, 
por acaso não haveriam os incrédulos e cruéis judeus de o ridicularizar 
e apedrejar? Sim, quando é que creriam na Verdade calada dentro de 
um ventre os que mais tarde a desprezariam clamando no templo? Que 
não fariam a aquele que ainda não aparecia os que mais tarde, no 
esplendor dso milagres, o lançariam às mãos impias? 

Foi, pois, com razão, que o justo, para não ser forçado a mentir 
ou difamar a inocente, quis deixá-la ir secretamente. 

Se contudo julga alguém de outro modo e se empenha em que José, 
como homem, duvidou e por causa da suspeita, sendo justo e não querendo 
cohabitar com ela, mas de outro lado, sendo misericordioso e não 
querendo difamá-la, pensou em deixá-la partir ocultamente, respondo, 
em breves palavras, que mesmo assim foi necessária a dúvida de José, pois 
mereceria ser dissolvida pelo oráculo divino. Com efeito, está escrito; 
“Enquanto, porém, cogitava êle nisto, a saber, em deixá-la partir, apa- 
leceu-lhe em sonhos um Anjo que dizia; (José, filho de Davi, não temas 
receber Maria por tua esposa, porque o que nEla foi concebido é obra 
do Espírito Santo” (Mt 1,20). Eis por que razões Maria desposou a José 
ou melhor, como diz o Evangelista, “o homem cujo nome era José”. 
Chama-o homem, não porque fosse marido, mas porque era homem 
de virtude. Ou antes, já que, segundo outro Evangelista, não é dito 
apenas homem, mas o seu marido, é com razão que o chama pelo que 
necessàriamente se julgasse que era. , 

Devia ser dito seu marido porque era reputado como tal ; como aliás 
mereceu ser dito pai do Salvador sem o ser na verdade, mas porque se 
julgava sê-lo, consoante o mesmo evangelista; “E Jesús tinha cêrea de 
30 anos, sendo, segundo se pensava, filho de José”. Portanto, nem o 
marido da Mãe nem o pai do Filho, apesar de, como se disse, julgado 
e dito ambas essas coisas durante algum tempo, por acertada e necessária 
providência . , . . 

Conjectura, agora, a partir dessa apelação com a qual, embora a ti- 
tulo de dispensação, mereceu ser honrado por Deus. sendo chamado e 
julgado pai de Deus; a partir do próprio significado 'do vocábulo, (que 
não duvidas ser uma hipérbole), conjectura (piem, que homem, foi ésse 


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SÃO 


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O 


José. Lembra-te também daquele grande patriarca de outrora, vendido no 
Egito (Gen 37,27): e vê que êste não apenas teve por sorte o mesmo 
nome, mas a castidade, a inocência e a graça. 

Se, com efeito, aquele José, vendido j)ela inveja dos irmãos e levado 
para o Egito, prefigurou a “venda” de Cristo; êste José, fugindo à inveja 
de Herodes, levou Cristo ao Egito (Mt 2,14) . A(|uele, guardando fide- 
delidade ao seu senhor não quis unir-se à sua senhora ( (len 39,12) ; êste, 
continente, guardou com fidelidade sua senhora a iMãe de seu Senhor, sa- 
bendo-a Virgem. Àquele foi concedida a inteligência dos mis- 
térios dos sonhos (Gen 40,41); a êste o conhecimento e a ])articipação 
dos mistérios celestes (Mt l,2o) . .Xciuele guardou o trigo não para si, 
mas para todo o povo (Gen 40,41); êste recebeu a guarda do pão vivo 
que vem do Céu, a guarda para si e para todo o mundo. 

Não há dúvida de que José tenha sido um homem bom e fiel ; foi o 
esposo da Mãe do Salvador. Servo fiel e prudente, direi, constituido pelo 
Senhor como amparo de Sua Mãe. nutrido de Sua carne, e, finalmente, 
único na terra como coadjutor do grande Conselho. 

Ocorre aqui referir ainda que pertencia à Casa ('e Davi. 

Verdadeiramente, sim, da casa de Davi, verdadeiramente de estirpe 
régia desceiiíle êsse homem José, nobre i>ela origem e mais ainda pelo es- 
pírito. Filho de Davi que não deshonra seu pai. Integrahnente filho 
de Davi, não só pela carne, pas j)ela fé, pela santidade, ])elo devota- 
mento, achado pelo Senhor como outro Davi, segundo o Seu Coração, 
])ara confiar-lhe o mais secreto e sagrado arcano de Seu Coração. A êle, 
como Davi, manifestou o ignoto e o oculto de Sua Sabedoria; deu-lhe 
o não ignorar atiuele mistério que nenhum dos i)ríncipes dêste século 
conheceu; deu-lhe aquilo que muitos reis e profetas desejaram ver e não 
viram, desejaram ouvir e não ouviram; e deu-lhe enfim não só ver e 
ouvir mas ainda carregar, conduzir, abraçar, beijar, nutrir, e guardar. 

Não apenas José, senão também Maria, deve-se crer que provinha 
da casa de Davi. Não seria desposada com um homem da casa de Davi 
se não fosse também da casa de Davi. Tinham, j)ois, ambos, essa origem: 
mas só nela se cunqjriu a verdade cpie o Senhor jurara a Davi, ficando 
José apenas como sabedor e testemunha do cunqrrimento da i)romessa. 

No fim do versiculo diz-se: “E o nome da á irgem era Maria”. 

Digamos algo sôbre êsse Nome, que se diz significar ES TRELA DO 
MAR e (pie se ajusta muito convenientemente à Virgem Mãe. Ela, na 
r-erdade, pode muito bem ser comparada <à estrela: como a estréia emite 
seus raios sem corrupção de si, também Ela, sem lesão de si, deu à luz 
ij Filho. E como o raio não reduz o brilho do astro, também o Filho 
não diminuiu a integridade da Virgem. É ela pois aquela estréia nobre 
oriunda de Jacó, cuja luz ilumina o orbe inteiro, cujo esplemlor refulge 
nas alturas e i>enetra os abismos ; percorrendo a terra e antes aquecendo 
os espiritos que os corpos, fomenta as virtudes, consome os vícios. 

Ela é, direi, a estréia preclara e excelente, alçada necessariamente 
sôbre êste mar grande e espaçoso, brilhando ])or seus méritos, iluminandio 
com seus exemplos. , 


19 — 


•■‘MISSUS EST” 

ü ! Ouem quer que te encontres na voragem dêste século, mais a te 
afogares entre omias e tempestades do que a caminhares sôbre terra 
firme, não afastes os olhos do fulgor dêsse Astro, se não queres suhmegir 
às ])rocelas. 

Se se levantam os ventos das tentações, se investes sôbre os escolhos 
das tribulações, olha ]>ara a Estréia, chama por Maria. 

Se estás agitado j)elas ondas da soberba, ou da ambição, ou da de- 
tração, ou da inveja, olha para a Estréia, chama por Maria. 

vSe a ira. a avareza ou os prazeres da carne sacudiam a nau da lua 
alma, olha i>ara Maria. 

Se talvez. conturba<lo ijela enormidade de teus crimes, confuso pela 
fealdaele de- tua consciência, apavorado ante a idéia do Juízo, começares 
a ser tragado pelo báratro da tristeza e pelo abismo do desespêro, pensa 
em MAKI.A. Nos perigos, nas angústias, nos momentos de dúvida, 
pensa em Maria, clama POR MARIA. Não te saia ela da bôea, não 
se aparte de teu coração ; para conseguires a sua intercessão, não largues 
o e.xemplo de sua vida. 

Seguiiído-a não te desvias, invocando-a não desesperas, nela pensando 
não erras. Se ela te segurar tu não cairás, se te proteger nada tens que 
temer, .se te guiar não te fatigarás, se te fôr propícia alcançarás o fim; 
e então experimentarás em ti mesmo com que razão foi dito; “E o nome 
da Virgem era Maria’’. 

j\Ias devemos parar um pouco por aqui, para não contemplarmos 
apenas de passagem o fulgor dessa luz tão grande. Empregando as pa- 
lavras do Apóstolo; “Bom é estarmos aqui” (Mt 17,4) -é, bom contemplar 
docemente em silêncio o que um discurso laborioso não consegue expri- 
mir. Nesse entre-tempo, graças à contemplação devota da luminosa 
Estréia, tornar-se-á mais fervente a exposição db que se segue. 


Há 10 anos 
é feita pela 

Emprêsa EDITÔRA CDRIOCA Ltda. 

Rua Dona Isabel, 126 - Bonsucesso - GB 


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Paulo VI, ao assumir a cátedra de Pedro, para o govêrno 
dos fiéis, para encaminhar os homens para Deus, lança-se 
à realização do grande programa que lhe deixara em testa- 
mento 0 grande João XXIII. A renovação e a estruturação 
na continuidade de uma tradição que remonta ao próprio 
Cristo eis o grande plano que se estende sôbre tôda a huma- 
nidade como uma imensa bandeira de salvação, de esperança 
e de segurança. Paulo VI continua a grande linha de apro- 
ximação quanto aos povos que destinos históricos e ideológi- 
cos afastaram quase que definitivamente de sua primordial 
vocação cristã, ao afastá-los dos sucessores daquele que, com 
ou sem méritos, com ou sem defeitos, recebeu as chaves do 
reino dos céus. Paulo VI tenta aproximação com os meios 
religiosos russos. Na linha de renovação interna, não hesi- 
tou o Pontífice em reabrir o célebre e já famoso Concílio 
Ecumênico, Vaticano II, apontado por muitos como o gran- 
de acontecimento do século, numa revoada de esperança nas 
fôrças do Espírito, diante de um mundo descrente e angustia- 
do, na mesma medida em que se satura das ilusões da maté- 
ria e aposta tôda a sua felicidade nos fugazes encantos de 
um naturalismo que satura, que esteriliza, que cansa, que 
divide e desarmoniza, porque se confunde com os interesses 
que se chocam uns com os outros e se destróem. 

O Concílio Ecumênico reaberto nos leva a pensar no 
tema Liturgia, até agora amplamente trabalhado por êle. 
Vem-nos então à lembrança a Pastoral da Quaresma de 1958 
que como Arcebispo de Milão e ainda não Cardeal, Giovanni 
Battista Montini lançou aos seus Diocesanos sôbre a Educa- 
ção Litúrgica. Ê de grande interêsse recordarmos alguns dos 
trechos, mais significativos dêsse importante documento e 
salta á vista como suas idéias prepararam de perto alguns 
dos grandes passos iniciados pelo Concilio. Convém recordar 
que a Pastoral respeita fundamentalmente a situação vigen- 
te então de absoluta rigidez quanto ao uso do latim na litur- 
gia, e nem por isso deixa de sugerir meios eficazes para uma 


21 — 


PAULO 


E 


A 


LITURGIA 


V I 

aproximação dos fiéis á participação litúrgica, para aumen- 
tar-lhes a compreensão da ação sagrada, mostrando-se ou- 
trossim que a língua latina está longe de ser o único ou o 
grande impecilho a esta compreensão. Hoje sabemos que o 
Concílio, mantendo o latim como língua oficial da liturgia 
latina, abrirá amplas as portas ãs linguas vulgares para que 
a liturgia possa doiitrinar o povo em sua própria lingua, na 
qual êste também, se dirigirá a Deus em oração mais cons- 
ciente 

A pastoral do Arcebispo Montini nos fala em primeiro 
lugar da grande graça que Deus concedeu aos homens: a 
de poderem êles se dirigir ao Deus Criador como a um Pai, 
através da oração. Eis alguns textos da Pastoral da Quares- 
ma de 1958: 

A Primeira Resposta ã Revelação: A Oração 

Entre tantas conseqüências possíveis, voltaremos nossa 
atenção, nesta carta pastoral, a uma só, como sendo, a nosso 
ver, a resposta primeira e a mais óbvia à felicíssima Revela- 
ção que Deus se dignou fazer de si mesmo, pondo em nossos 
lábios, pelo ensinamento de nosso Senhor Jesus Cristo, o 
simplicíssimo e inefável norne de Pai; eis o que é a oração. 

É preciso que nossas relações com Deus se tornem ca- 
pazes de colóquio, tal. como convém a filhos, com uma tal 
plenitude de espírito e de verdade (cf. João 4, 26) , aquela 
precisamente que o Pai espera de nós. 

É preciso que nossa religião se encha de uma expressão 
adequada á sua realidade; é preciso que nossa vida espiritual 
se enriqueça de nova interioridade, de nova familiaridade 
com Deus; que nosso senso religioso, despertaao pelo chama- 
do das verdades da ordem sobrenatural, reencontre sua lin- 
guagem, extremamente límpida e sincera, forte e autêntica, 
cheia de verdade e de poesia, para se pôr em comunicação 
com o Deus presente. 

A Oração Litúrgica 

Sôbre êste tema — a oração cristã — vasto como o mar, 
não temos a intenção de percorrer-lhe os numerosos e dife- 
rentes caminhos; mas só nos deteremos em um dêles, porque 
nos parece em si o principal e para nós o mais útil: o que 
trata da oração do povo cristão, considerado como uma co- 


— 22 — 


PAULO VI E A LITURGIA 

munidade viva, e remida para oferecer ao Senhor o tributo 
de um culto público, queremos dizer a oração litúrgica. 

Ela é como a artéria central, à qual conduzem os outros 
regatos da oração privada e popular e donde derivam outros 
para a vida espiritual pessoal; e é aquela que todos — pas- 
tores e fiéis — não obrigados a seguir, não para cumprir um 
simples dever de observância exterior, mas para extrair o 
alimento interior, indispensável; e é a que deve ser a corren- 
te principal da vida religiosa católica, na secularização cres- 
cente da sociedade moderna; é ela que deve dar à Igreja uma 
consciência de si mesma mais profunda e mais original, tor- 
ná-la capaz de, com mais facilidade e prazer, atrair as almas 
.ao encontro e à regeneração da união com Deus . 

Um Problema Central para a Vida Pastoral de Hoje 

Sabe-se que a Liturgia se situa, hoje, como o problema 
■central da vida pastoral e não faltam documentos do Magis- 
tério eclesiástico e da literatura católica que ilustram ampla- 
mente êste ponto; de tal forma que, para nós, basta agora 
fazer alusão a um só aspecto, o da prática, que trata do pro- 
gresso que devemos fazer para compreender a santa Litur- 
gia, celebrá-la, divulgá-la e reunir ao seu redor, como em vol- 
ta de seu eixo, a vida cristã. 

Motivos que Exigem um Renascimento Litúrgico 

Inegávelmente, nossa vida religiosa necessita de uma re- 
movação, de um meihoramento . 

A decadência espiritual de nosso tempo o exige. 

O desenvolvimento cultural de nosso povo o exige. 

A vitalidade interior da santa Igreja o exige. 

A palavra do magistério eclesiástico o exige. 

O mandamento eterno do Cristo: “Fazei isto em minha 

memória, o exige. 


'O Renascimento Litúrgico não é uma iniciativa facultativa. 

Devemos, neste ponto, observar como está totalmente 
ultrapassada a mentalidade que considera o renascimento h- 
iúrgico como algo facultativo, como uma destas numerosa' 
-e conhecidas devoções às quais adere quem quer; ou que pen- 


— 23 


PAUI. o VI E A LITURGIA. 

sa que o movimento litúrgico é uma tentativa de refoima- 
dores inquietos, de ortodoxia duvidosa; ou um ritualismo pu- 
ramente rubricista, cristalizado e exterior, ou ainda, um pre- 
ciosismo arqueológico, formalista e esteticista, ou ainda, um 
produto claustral inadaptado às pessoas de nosso século, ou 
ainda, uma oposição sistemática à piedade pessoal e às de- 
voções populares. 


A Liturgia é Meio e Forma do Renascimento Religioso 
segundo o Espirito da Igreja. 

O ensinamento da Igreja, ao contrário, coloca o renasci- 
mento litúrgico na sua justa linha doutrinal, promove-a e a 
preconiza como um revigoramento do exercício autêntico do 
sacerdócio do Cristo na Igreja, como uma ação necessária, in- 
terior e exterior, de autêntica espiritualidade cristã, como o 
culto que possui “a máxima eficácia de santificação” e “uma 
dignidade superior à das orações privadas”. 

Devemos, por conseqüência, acolher o renascimento li- 
iúrgico como o meio e a forma do renascimento religioso se- 
gundo o espirito e as leis de nossa mãe, a Igreja. 


Obstáculo da Língua Latina e do Simbolismo dos Ritos. 

O obstáculo não é sómente a língua latina, que a Igreja 
por graves motivos, deseja conservar, embora não tenha só- 
mente concordado mas recomendado aos fiéis o emprêgo do 
Missal traduzido em língua vernácula, e que tenha dado 
regras para o emprêgo das traduções das perícopes escritu- 
rísticas durante a Missa. 

Recomendamos, pois, onde é possível, o emprêgo do Mis- 
sal, ao menos dominical, ou de folhetos que contenham os 
textos e as explicações relativas a cada uma das Missas Do- 
minicais, e ficaremos felizes de ver cada fiel munido de um 
livro de orações que o ajude a rezar com a Igreja. 

O obstáculo surge principalmente pela maneira como a 
liturgia exprime a oração da Igreja e os mistérios divinos. 

A variedade de suas formas, o desenrolar dramático de 
seus ritos, o estilo hierático de sua linguagem, o emprêgo 
continuado do sinal e do símbolo, a profundeza teológica das 
palavras e dos mistérios celebrados, tudo parece conspirar 
para fazer difícil a compreensão da Liturgia, especialmente 


— 24 — 


PAULO 


E 


A 


LITURGIA 


V I 


ao homem moderno, habituado a reduzir tudo o que o con- 
cerne a uma extrema intelegibilidade e a crer que possui uma 
verdade desde que a possa representar por uma imagem sen- 
sível, uma figura geométrica ou um esquema intuitivo. 

Necessidade do Estudo e da Explicação dos Ritos Sagrados. 

Mas é também para vencer êste obstáculo que estamos 
a falar da educação litúrgica. 

Estamos persuadidos de duas necessidades a respeito dis- 
so: 1.0 — a de dar aos fiéis a possibilidade de compreender 
a oração da Igreja, sob pena de vermos que se afastam dela, 
como que excluídos de seu interior recinto espiritual, e como 
que ofendidos no hábito, ora já enraizado pelo progresso da 
cultura, de tudo compreender e tudo saber sôbre tôdas as 
coisas que os cercam e os interessam; 

e 2.0 — a de transformar a dificuldade apresentada pelo 
rito litúrgico, em ajuda para penetrar o sentido oculto, po-\ 
rém maravilhoso, inexaiirível e vivo, contido no culto católico. ': 

Obtém-se êste resultado precisamente assegurando-se <a 
participação dos fiéis no culto: os fiéis tornam-se os promô- 
tores do culto quando dêle participam juntos. 

Diremos, sumàriamente, que é preciso estudar a Litur- 
gia: tanto os leigos como os clérigos. 

E êste estudo não se deve limitar às expressões rituais da 
Liturgia, conhecimento êste que também é tão importante 
para a execução das cerimônias religiosas. 

Mas deve especialmente deter-se no conteúdo doutri- 
nal e mistico da liturgia e deve sublinhar os aspectos pas- 
torais e os poderes santificadores da mesma. 

E tanto melhor se estender-se também à pesquisa de 
suas riquezas históricas, literárias e documentárias. 

Dizemos que é necessário explicar aos fiéis os ritos da 
liturgia, abrir o sentido desta linguagem mística, mostrar 
que virtudes didáticas e espirituais contém, e como a vida 
humana pode encontrar ai suas mais altas expressões san- 
tificadoras . 


— 25 — 


Sob o título 

Sentido comunitário 
da 


SOGIIPDB 



S. Emcia. o Sr. Cardeal LERCARO, 
arcebispo de Bolonha, 


pronunciem uma bela conferência no Mosteiro beneditino de 
S. Jorge em Veneza por ocasião dos cursos que no verão pas- 
sado ali se realizaram sobre Liturgia e Canto Gregoriano. 
Passando o mesmo mosteiro a publicar uma preciosa revista 
de Música Sacra e Liturgia cujo primeiro número cheio de 
interessantes artigos há pouco foi lançado ao público, tivemos 
ocasião de tomar conhecimento da íntegra do texto da refe- 
rida conferência, primeiro artigo da nossa revista que tem 
o sugestivo título: “Jucunda Laudatio”. 


— 26 — 


CARDEAL 


L E R C A R O 


Eis as palavras do Sr. Cardeal Lercaro: 

“Seja-me concedido antecipar três observações prelimi- 
nares cujo fim é esclarecer o sentido e determinar as condi- 
ções de uma eficaz interferência entre a Sagrada Liturgia e 
a atitude espiritual do Católico diante da Comunidade e sob 
as solicitações da vida social. 

1 — A primeira observação é a seguinte; quando se fala 
em Sagrada Liturgia deve entender-se sobretudo o espírito. 
Certamente o espírito da Liturgia determina as formas ex- 
ternas e através dessas se m.anifesta; mas limitar-se sómente 
às formas seria reduzir a Liturgia a um rubricismo árido e 
íormalístico, que acabaria não apenas por não exercer eficá- 
cia alguma sobre a vida espiritual — e no campo de nosso te- 
ma, sôbre as posições internas nos confrontos com a comuni- 
dade — mas por tornar estéril a própria vida religiosa, em- 
pobrecendo-a, deformando-a . 

Se, portanto, as formas devem ser observadas com since- 
ra e consciente adesão, devem contudo ser principalmente 
estudadas e meditadas no espírito que as anima e vivifica; 
“spiritus est qui vivificat, caro autem non prodest quidquam”. 

Uma útil compreensão das formas litúrgicas pode ser 
obtida apenas com o estudo da história litúrgica; história 
que é todavia não mais que um meio — aliás necessário — 
para o conhecimento e para despertar o gôsto pelo espírito 
da Sagrada Liturgia. 

Valorizamos, pois, tanto a rubricística como a história 
litúrgica como instrumento necessário para uma vida litúr- 
gica plena; mas apenas como “instrumentos” que condicio- 
nam e facilitam a aproximação da alma ao espírito da Sagra- 
da Liturgia e a participação ativa na ação litúrgica . 

2 — A segunda observação é precisamente a seguinte; 
falamos aqui de uma eficácia da Liturgia em formar eficaz- 
mente (sic) para a vida social, na medida em que na Liturgia 
há participação ativa da Comunidade dos fiéis. Direi também 
que a fôrça sobrenatural da Sagrada Liturgia é tal que ja- 
mais lhe falta uma profunda ação formadora exercida sôbre 
o povo de Deus. 

Mas, é certo que a riqueza dessa contribuição será — sob 
c ponto de vista natural por razões psicológicas e, sob o pon- 
to de vista sobrenatural, pela maior adesão a Cristo operante 
em sua Igreja — será tanto maior quanto mais consciente e 
mais estreita fôr a participação ativa dos fiéis. Por essa ra- 
zão, naquele documento sempre memorável que pode bem ser 


— 27 


SENTIDO 


COMUNITÁRIO 


reconhecido como a primeira consagração autorizada do ho- 
dierno renascimento litúrgico, — O “Motu Proprio” de S. Pio 
X sôbre a m.úsica sacra, datada de 22 de novembro de 1903 
■ — está expresso que “a participação ativa (em latim: “actu- 
osa”) nos Sagrados Mistérios e no louvor perene da Igreja é 
a primeira e indispensável fonte na qual podem os fiéis atin- 
gir o verdadeiro espirito cristão.” 

3 ^ — o espirito cristão ; esta palavra de S . Pio X me con- 
duz à terceira observação preliminar. A Sagrada Liturgia, 
ainda que compreendida e participada, não determinará nor- 
mas exteriores de ação, nem formas concretas de vida social; 
mas criará o espirito, irá inspirar as posições internas que 
permitirão, em seguida, a cada um, seu inserimento franco, 
fraterno e operante na comunidade; e, na própria comunida- 
de, determinarão o clima e a orientação mais favoráveis ao 
estabelecimento de uma ordem social contruída sôbre a jus- 
tiça e embebida de caridade.” (1) 

(1) Pelo que acabamos de ler nessas linhas preliminares, 
já podemos ter a impressão que seu autor o Sr. Cardeal 
Arcebispo de Bolonha quer enfrentar o seu tema: senti- 
do comunitário da Liturgia com a máxima extensão e 
fôrça que as palavras admitem, levando êste sentido co- 
munitário da oração oficial e pública a ser o grande ins- 
pirador das atitudes fundamentais relativas a uma vida 
e a uma ordem sociais. 

Bem sabemos como os movimentos sob o título, sin- 
cera ou falsamente assumido, de movimento de justiça 
social, de pa.rticipação de todos os homens nos grandes 
bens econômicos, sociais culturais de uma civilização têm 
a capacidade de arrebatar, de congregar massas, de ali- 
ciar vocações, especialmente entre os jovens. A palavra 
do Cardeal Lercaro, Arcebispo que vive intensamente o 
seu “munus” pastoral em tôda a sua profundidade espi- 
ritual e, como consequência disso, em tôda a sua exten- 
são temporal e social, consequência inseparável da rea- 
lidade única da vida dos fiéis, a palavra do Cardeal Ler- 
caro é autorizada para colocar o imenso problema da 
ordem social cristã em seus devidos têrmos, mostrando 
como essa ordem, terá que estar enraizada necessària- 
mente nas grandes virtudes cristãs que não sobrenatu- 
rais, que nos são distribuídas, com a Graça de Cristo, 
através dos Sagrado Mistérios por Êle, para êsse fim, ins- 
tituídos. Assim, resumindo: qualquer norma exterior de 


— 23 — 


CARDEAL 


L E R C A R O 


Supostas estas observações, forçoso é notar como a capa- 
cidade formadora da Liturgia, no sentido de um autêntico 
espirito de sociabilidade, lhe é conatural e resulta de seu 
próprio sêr. 

Que é. na verdade, a Liturgia? Repetidas vêzes a Encícli- 
ca “Mediator Dei”, magna carta da renovação liaúrgica mo- 
derna, define-a como o culto do Cristo total ao Pai; “da Ca- 
beça", acrescenta, “e dos membros” — “Capitis nempe et 
memborum”. 

A sacra Liturgia é, pois, a ação saderdotal do Cristo pela 
qual Èle, Filho de Deus feito nosso Irmão e inserte neste uni- 
verso criado, glorifica a infinita Majestade de Deus, adora, 
rende graças, expia, implora. . . mas juntamente com seus 
membros místicos: os fiéis que pelo batismo foram nEle in- 
sertos e feitos partícipes de Sua vida; com sua Igreja, por 
isto que constitue, na variedade dos órgãos e das funções. Seu 
Corpo Místico, no qual Êle vive, fonte de vitalidade sobrena- 
tural para os homens, fala e opera: cancela o pecado, santi- 
fica as almas, ilumina-as e as conduz à vida eterna. 

A Liturgia é, portanto, ação eminentemente comuni- 
tária, em que tóda a Igreja se reune; em sua grandeza, para 
a qual são demasiado limitados os confins do mundo visível, 
por estender-se ao céu mesmo por lá ter sua morada perma- 


ação encontrará necessàriamente, não sua formulação 
concreta, mas, muito mais que isso, seu espírito, a fôrça 
e o segrêdo de sua eficácia, na liturgia, que forja sobre- 
naturalmente as inteligências e os corações. A vida so- 
cial cristã tem que ser uma expressão transbordante das 
virtudes cristãs e do espírito cristão que nos é infundido 
pela Liturgia . Essa infusão, tanto mais fecunda e abun- 
dante será, quanto mais a Liturgia fôr, segundo sua ín- 
dole própria, participada, num ambiente comunitário 
e de unidade num corpo único, animado pela vida divina. 

De onde se segue que. Liturgia aqui é participação 
comunitária num espírito que transborda, das formas 
exteriores e das rubricas, sem se deixar absorver por elas 
e sem permitir que elas absorvam a mente dos fiéis. Um 
espírito de vida social cristã vem pois de um espírito cris- 
tão que precipuamente se encontra na liturgia participa- 
da e vivificada pelo Espírito. Pensamos assim ter expli- 
cado as palavras, já por si claras, do Eminentíssimo Car- 
deal Lercaro. 


— 29 


D A 


LITURGIA- 


S A G R A D A 

nente, bem como por acolher também os mortos que adorme- 
ceram santamente no Senhor; e em sua perenidade, pela 
qual, como o Cristo, sua Cabeça e sua vida, ela é ontem, hoje 
e por todos os séculos, sempre a mesma. 

Unida a Cristo, a imensa comiunidade da Igreja, nEle, 
com Êle e por Êle, glorifica o Pai; unida a Cristo, dÊle e por 
Êle recebe os dons, o perdão, a graça do Pai . 

Ação e oração comunitária sempre, a Liturgia; ainda 
que alguns atos. como o Sacramento da Penitência na con- 
fissão auricular, pareçam apresentar notas de individualis- 
mo; ou que as circunstância reduzam ou suprimam a parti- 
cipação e até a simples presença de uma comunidade minús- 
cula que seja, como quando o sacerdote recita solitário, na 
intimidade de uma cela, o seu breviário; ainda então, miste- 
riosamente, a Igreja — ecclesia, assembléia — está presente. 
O sacerdote que absolve age com a autoridade que ela lhe 
conferiu, e invocará suas orações e merecimentos para com- 
pletar a expiação do penitente: “precibus et meritis. . .”; ain- 
da então a Igreja está presente. Demais, o gesto e a palavra 
do sacerdote na intimidade do confessionário constituem o 
sinal eficaz pelo qual o filho pródigo, revestido da estola pri- 
meira, é readmitido na familia e, assim, sentar-se-á á mesa 
comum; o pecador readquire a plenitude dos titulos para fa- 
zer parte do povo santo — plebs tua sancta — que oferece o 
sacrifício. Isto é o que aparecia com evidência no Rito Solene 
da Reconciliação dos Penitentes na Quinta-feira Santa, rito 
ainda conservado no Pontificial Romano. 

Do igual modo, tôda a Igreja, no Breviário, pela bòca de 
seu ministro, que ela própria designou para êsse ofício, canta 
0 louvor de Deus e diante de Seu trono apresenta as súplicas 
c as necessidades dos homens: na intimidade da cela, como 
no confessionário, está presente a Igreja, Corpo Místico de 
Cristo, pois que Cristo, sua Cabeça, está presente; “in omne 
actione liturgica”, adverte a “Mediator Dei”, “praesens adest 
Christus”. 

Uma ação de tal modo eminente e constantemente co- 
munitária não pode deixar de ser educativa e formadora do 
espírito de sociabilidade. 

+ 

Da natureza da S. Liturgia seguem-se òbviamente suas 
manifestações e formas; do que resulta estar ela sempre a 
contemplar e a exprimir a sociedade sobrenatural. 


— 30 — 


CARDEAL 


L E R C A R O 


Por isto a linguagem da liturgia é sempre no plural, com 
exceção daqueles momentos em que, com evidente compreen- 
são da realidade humana, concede ao sacerdote ou ao fiel ex- 
primir a própria individualidade, permanecendo, porém, sem 
cessar, em estreita comunhão com os irmãos. 

Pois, embora por natureza seja o homem um ser social, 
nem possa ser concebido fora da sociedade; embora, da mes- 
ma forma, no plano sobrenatural opere Deus'sua salvação 
no âmbito de uma sociedade, a Igreja; tem êle contudo, e por 
natureza, uma personalidade indivídua que a sociedade não 
deve nem pode sufocar, e conserva na Graça uma insupri- 
mivel esfera íntima de relações com o Senhor; assim a his- 
lória maravilhosa da ascese cristã sempre reconheceu e jus- 
tificou como necessárias, tanto as funções da piedade indi- 
vidual, com a riqueza de suas manifestações, quanto as da 
oração pública, e, embora afirmando a superioridade desta 
última, jamais subestimou aquela ... Ao contrário, como 
observávamos, mesmo no âmbito de uma oração pública e 
comimitária, não só exige, como é razoável, a adesão interior 
pessoal, mas consente também a expressão individual: 
“Suscipe . . . hanc immaculatam Hostiam quam ego indignus 
famulus tuus offero tibi . . . ; Domine, non sum dignus . . . ; 
Mea culpa ...” 

Mas, á exceção dêste parêntese — diria humanamente 
espontâneo — a Liturgia sente sem cessar a presença e as 
instâncias da imensa Comunidade que é a Igreja e da pe- 
quena Comunidade que em ato, naquele momento, exprime 
c como que resume a Igreja. 

Os nomes com que uma e outra vêm designadas são 
singularmente expressivos: “familia tua (Dei); cuncta fa- 
mília tua; populus tuus: plebs tua sancta; ecclesia tua . . .” 

O fiel que toma conhecimento desta linguagem e entra 
em contacto com ela, já sente que deve superar os limites 
acanhados de um individualismo fácilmente tentado pelo 
egoísmo; e é levado a abrir seu espírito e seu coração a esta 
ampla sociedade, unido à qual encontra-se, em sua oração, 
com o olhar paterno de Deus. 

* * 

A Sacra Liturgia não ignora que esta “família do Senhor”, 
éste “povo de Deus”, esta “Igreja”, de que ela é a expressão, 


— 31 — 


SENTIDO 


COMUNITÁRIO 


tem uma ordem que lhe deu seu próprio Fundador e Cabeça; 
sabe a Liturgia que, como num corpo diversos são os órgãos 
e diversas as funções,, concorrendo, porém, todos, para o 
bem de todo o organismo, vinculados em profunda unidade 
de vida, assim também no Corpo Mistico de Cristo, de que 
ela é a expressão, diversos são os dons do Espirito e diversas 
as funções; mas todos os membros congrega-os a Caridade, 
o “vinculo perfeito”, em maravilhosa união. 

Ela exprime, na distinção das vestes litúrgicas, na dife- 
lenciação das funções, no reconhecimento devoto da autori- 
dade com sinais externos de veneração (inclinações, genu- 
flexões, ósculo . . . ) a constituição hierárquica dessa Comu- 
nidade que, entretanto, sabe ser tôda de homens fracos e 
frágeis, que porisso repetem; “Confiteor, mea culpa; nobis 
quoque peccatoribus ...” 

Mas sóbre a base desta comum insuficiência e da comum 
dependência natural de Deus — nos servi tui — exprime e 
invoca constantemente o vinculo da caridade que, na fé co- 
mum, torna plena a unidade da familia de Deus: “Spiritum 
nobis. Domine, tuae charitatis infunde ...” E tudo o que 
pode exprimir melhor esta unidade do Corpo Místico, observa 
autoritativamente o Santo Padre na “Mediator Dei”, tem 
razão de ser observado e cumprido. 

Por isto encontramos na Liturgia a saudação recíproca 
entre o celebrante, ou o diácono, e a assembléia: “Pax vobis; 
Dominus vobiscum ...”; recíproca, disse; o que importa o 
diálogo e, portanto, a participação ativa; e, com as sauda- 
ções e convites — “Oremus; flectamus genua; sursum cor- 
da; gratias agamus ...” — e a constante oração por todos — 
pro omnibus circunstantibus sed et pro omnibus fidelibus 
christianis vivis atque defunctis;- pelas angústias e necessi- 
dades do mundo e de cada um, sobretudo nas litanias e ora- 
ções — a recordação quase familiar dos vivos e dos mortos, 
da mesma forma que a dos Santos; por aquêles fraternal- 
mente se roga; dêstes invoca-se a oração e a proteção fraterna. 

Bastaria correr os textos do Missal e do Breviário (limi- 
tando-nos a êstes livros litúrgicos) para ter-se uma verda- 
deira floração — por vêzes delicadamente perfumada na 
beleza das expre.ssões — dêste sempre lembrado vínculo de 
união na fraterna caridade dos filhos de Deus. 

Jamais a presença, os rogos, as angústias, os sofrimen- 
tos, as necessidades dos outros são ignorados; jamais a ora- 
ção se dobra egoisticamente sóbre o indivíduo, limitando- 


— 32 — 


C A R D E A 1. 


L E R C A R O 


-lhe a visão às suas estritas necessidades, freqüentes vêzes 
apenas materiais: o que, em verdade, constitue não rara e 
prejudicial tentação para a oração individual, quando não 
se mantém em contacto com o espirito da oração litúrgica 
e dêle não se nutre. 

Esta é, portanto, sempre coral; ainda quando o côro não 
está presente . . . Mas a qualidade de ser coral é inata à Li- 
turgia como o é à vida: à vida natural e à sobrenatutral 1 


* 


Assim o “canto” não é um a mais, um embelezamento 
periférico e acidental da Liturgia: a palavra, na verdade, é, 
por excelência, o meio de relações entre os homens, e porisso, 
justamente, é o canto expressão conatural à Liturgia. 

Antes de tudo, como palavra coletiva da assembléia, que 
dificilmente se exprimiria com beleza sem dar ao próprio 
discurso um ritmo. A multidão tem dois modos de expri- 
mir pela voz seus sentimentos: o grito e a palavra ritmada. 
O grito convém à praça, não à assembléia santa dos filhos 
de Deus; a esta, para exprimir com beleza o pensamento e 
o sentimento de todos, a palavra ritmada, o canto, pois, que 
na Liturgia é, porisso, simplicissimo, mas eficaz ao máximo 
para traduzir de modo sensível a unidade dos sentimentos 
religiosos da assembléia. 

Para traduzir e nutrir aquela unidade! Porque o canto 
irmana, Estais num ônibus, premidos a ponto de não po- 
derdes mover- vos; embora, porém, vizinhos uns dos outros, 
nenhum dos passageiros canta: um é indiferente ao outro, 
um é desconhecido para o outro; suas dores, suas alegrias, 
suas aspirações, suas angústias não me tocam, mesmo que 
seu cotovêlo comprima o meu braço; minhas dores e minhas 
angústias não o tocam . . . vizinhos demais, a ponto de im- 
pedirmo-nos um ao outro todo movimento, estamos espiri- 
tualmente longe, ausentes um do outro: e não cantamos! 

Mas imaginai que numa viagem, num cômodo carro de tu- 
rismo, encontre-se um grupo de amigos que tenham as mes- 
mas idéias, gozem em comum as horas de evasão, visem à 
mesma meta . . . então o canto brota espontâneo, expressão 
natural de fraternidade, alimento precioso para a união dos 
espíritos, a fusão dos corações . . . 


33 — 


DA SAGRADA LITURGIA 


Porisso canta-se na Igreja: a caminho da eternidade, 
na mesma nau, com o mesmo objetivo e a alegria comum de 
nos sabermos filhos de Deus, cantemos! A fusão harmo- 
niosa das vozes é sinal, penhor e encorajamento da união 
dos espiritos, e assim — conforme a exortação de São Paulo 
(Rom. 15, 5-6) — “com um só coração e com uma só voz 
glorifiquemos Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo” I 

Sinal e penhor de união, o canto sacro, com real e pro- 
funda diferença de todo outro canto, porque neste há apenas 
um efeito psicológico não desprezível — nem desestimado 
ou ignorado pela Liturgia — mas natural; no canto litúr- 
gico há, antes, aquela presença de Cristo que acompanha 
tôda ação litúrgica, conferindo-lhe tal potência que o torna 
expressão e alimento de caridade. A antiguidade exprimia 
esta santidade do canto litúrgico no aforisma: “qui bene 
cantat bis orat !” E a Igreja, a partir de São Paulo, infini- 
tas vézes sublinhou a importância e a eficácia do canto li- 
túrgico, convidando os fiéis a não permanecerem mudos na 
santa assembléia, mas a fazer ouvir sua voz “como o fragor 
de grandes águas”, no dizer da Escritura. 

Na recente encíclica “Musicae Sacrae Disciplina”, o 
S. Padre Pio XII não hesitou em declarar o ofício dos can- 
tóres, dos executantes, dos compositores de música sacra, 
uma função de apostolado. 

Isto porque, mais de perto que outros elementos, o canto 
manifesta e faz a unidade espiritual da assembléia; bem en- 
tendido, quando seja sacro e não permaneça apenas a exe- 
cução, perfeita que seja, de uma “escola”, mas haja nele a 
participação do povo, como se vê da tradição litúrgica, que 
conheceu, desde o início, o canto antifônico e responsorial, 
no qual, com a “escola” que executa o Salmo ou outro texto, 
alterna, a cada versículo, o povo todo com um refrão. Exce- 
tua-se o caso daqueles cantos que, por sua natureza ou pelo 
momento em que se situam, manifestam antes uma pausa 
de meditação entre uma leitura e outra, como o Gradual, 
ou visam dar ao louvor do Senhor um caráter especial de 
discreta mas estudada beleza. 

Assim, também o canto litúrgico cumpre o conselho do 
Apóstolo íCol. III, 14-16), porque a caridade, vínculo perfei- 
to, e a paz jubilosa, fruto da palavra de Cristo acolhida no 
coração, estende-se ao canto: “Tende a caridade, que é o 
vínculo de perfeição; a paz de Cristo, a que fostes chamados 
em um só corpo, exulte em vossos corações ... a palavra de 


— 34 — 


CARDEAL 


L E R C A R O 


Deus habite em vós em plenitude, com tôda a sabedoria; 
instruí- vos e exortai-vos entre vós, com salmos e hinos e 
cânticos espirituais, cantando a Deus com suavidade em 
vossos corações”. 

+ 

4 * 4 * 

Não só o canto, porém, é na Liturgia elemento mani- 
festo e alimento eficaz do espírito de sociabilidade cristã. 

Também a presença comum, sem diferenciação de casta, 
de classe social, de raça: “em Cristo Jesus não há grego 
nem bárbaro, nem escravo nem livre”; e a própria posição 
dos presentes — juntos de pé, juntos assentados, juntos 
ajoelhados — constituem elementos eficazmente formadores. 

A presença comum, na comum e idêntica participação 
na oração, no ofertório, no Sacramento, é índice, é garantia 
de que, conformemente àquele conselho, na grande família 
de Deus não há filhos e servos, mas todos filhos admitidos 
na confiança e à mesa do Pai; e todos servos que esperam, 
entesourando Sua Palavra e Sua Graça, a Sua volta, pois 
a todos nos colocou em Sua Casa dos Céus. A posição co- 
mum é, no entanto, virtuosa superação daquele rebelde in- 
dividualismo que leva fàcilmente a estranhar-se dos outros 
para seguir apenas uma inspiração própria, talvez capri- 
chosa . . . Mas é também sinal e alimento de união dos espí- 
ritos; se tôda a família acha-se sentada à mesa e um filho 
está de pé, todos se porão a dizer: “Mas senta-te!” ofere- 
cendo-lhe pressurosos a cadeira . . . porque parece a todos 
que afasta-se da alegria comum, do comum encontro, quem 
não toma a posição comum. 

Têm êste sentido, óbvio e comovente, as disposições 
exaradas a respeito nas rubricas dos livros litúrgicos, nos 
diretórios diocesanos e, recentemente, na “Instrução da 
S. Congregação”. 

Um gesto caro à antiguidade, não de todo caído em 
desuso — como observa o mesmo Santo Padre na “Mediator 
Dei” — é o ofertório: o oferecimento de todos ou a oblata 
levada por alguns ao altar em nome de todos. É um colocar 
em comum, a serviço do Pai e dos irmãos, os próprios re- 
cursos; é a contribuição dos filhos para a mesa familiar; e 
porisso São Cipriano reprovava a matrona que não fazia o 
oferecimento de seu pão e comungava depois com o pão 
oferecido por uma mulher humilde. Sempre, desde São 


— 35 — 


SENTIDO 


COMUNITÁRIO 


Paulo (que ordena as coletas para os pobres de Jerusalém na 
reunião dominical — I Cor. XVI, 1-3) , desde São Justino, que 
afirma ser das oblatas tirado o socorro para as viúvas, ps 
órfãos, os forasteiros, os prisioneiros . . . sempre o ofertório 
foi a contribuição dos filhos para a vida da grande família; 
é êle sobretudo a expressão externa da íntima união espiri- 
tual de todos e de cada um com o Cristo, vítima divina que 
se oferece e por todos é oferecida à majestade do Pai. 

♦ 

Neste momento, antes de dirigir a atenção para o ato 
que, na Liturgia, mais que qualquer outro cria e educa o 
espírito da fraternidade sobrenatural, parece-me oportuno 
tocar em alguns ritos que podem apresentar-se ao profano 
com aparente interêsse mdividualístico; e, pois que muitos 
são hoje os profanos, freqüentes vêzes são êsses ritos assim 
vistos e considerados. 

O primeiro é precisamente o Batismo, considerado to- 
davia como interêsse e festa de família; seguem-se a Confir- 
mação e o Matrimônio: um e outro, em manifesta e diversa 
proporção, mas sempre de limitado interêsse: interêsse hu- 
mano, bem entendido, no plano da parentela, da amizade, 
das boas relações, da correção ou . . . do interêsse em sentido 
específico. 

O uso, hoje generalizado, das chamadas “participações 
de casamento”, com o respectivo convite, parece sublinhar 
o fato de que à comunidade eclesial êsses acontecimentos 
são indiferentes: a família paroquial, como tal, os ignora . . . 

Entretanto, se entramos no espírito da Liturgia — e, 
para o Batismo, o “Novus Ordo” da Vigília Pascal, bem como 
tôda a liturgia da Semana Santa, além da história litúrgica 
dos primórdios (ver, por exemplo. São Justino, no cap. 62 
da Primeira Apologia) são documentos luminosos — vemos 
que também êsses ritos têm amplo reflexo social: a família 
de Deus aumenta com um novo filho e curva-se comovida 
sòbre êle; o exército do povo de Deus acolhe pela Confirma- 
ção os novos recrutas, e os neo-confirmados, renovando agora 
pessoalmente sua profissão de fé e a oração de filhos, entram 
com plenitude de direitos — cristãos perfeitos — na Comu- 
nidade; e no Matrimônio, dois membros do Corpo Místico 
unem-se de modo indissolúvel para sua própria dilatação e 


— 36 — 


CARDEAL 


L E R C A R O 


para a expansão e continuação da família de Deus: a Igreja, 
a Paróquia não podem estar indiferentes; o sentido da Li- 
turgia circunda com a alegria comum êsses acontecimen- 
tos .. . como circunda com a oração de todos e a dôr comum 
as exéquias. 

O poema do rito das exéquias situa-se, sem dúvida, entre 
os mais belos — e são tantos — poemas da Liturgia . . . Mas, 
que não se esteja perdendo seu sentido também lá onde, 
por felicidade, ainda não se foi reduzido a uma pobre bênção 
apressada sôbre o caixão enquanto os participantes, à exce- 
ção dos parentes e amigos íntimos, ficam no recinto sagrado 
a tagarelar, como continuarão a tagarelar no híbrido cor- 
têjo onde se alternam sinais de luto com os da mais des- 
façada indiferença, e o único denominador comum parece 
ser a ausência de tôda esperança além do túmulo. 

Falta a caridade, e a solidariedade humana não basta 
para substituí-la . . . 

A volta, porém, a uma compreensão do espírito litúrgico 
restituiria ao funeral seu sentido sobrenatural, já maravi- 
lhosamente rico em si mesmo como a derradeira homena- 
gem prestada pelo cristão com seu corpo exânime, mas por 
precedente livre disposição, a Deus Pai, no seio da comu- 
nidade dos irmãos reunidos, ainda uma vez, em tôrno dêle, 
na casa comum, que jamais como naquele momento é a 
“porta coeli”. . . 

Como é evidente então o canto consolador, verdadeira 
sentença absolutória que fecha o drama temeroso do 
“Libera”: “In Paradisum deducant te angeli...”! 

Não posso, no entanto, deixar de acrescentar que tam- 
bém o próprio rito que precede a morte, a “Commendatio 
animae”, rito que se desenrola na intimidade de um quarto 
silencioso, entre choros reprimidos e o estertor de uma res- 
piração que se extingue, reune ainda tôda a Igreja em ora- 
ção: a do céu, invocada nas litanias dos agonizantes, nas 
invocações à Virgem, e a da terra, ao soar, no bom uso litúr- 
gico, o sino de advertência, para que de todo coração fiel, 
na hora tremenda da misteriosa passagem, levante-se uma 
súplica fraterna ... e tôda a Igreja acompanha êsse filho 
que parte, até aos umbrais supremos. 

Hoje, na vida mecânicamente acelerada, espiritualmente 
incolor, tudo isto talvez se vá desaparecendo; mas, como se 
vive mal sôzinho . . . e, sobretudo, como se morre mal sôzinho! 

A Liturgia provê com que o cristão jamais esteja só; e 


— 37 — 


D A 


SAGRADA 


LITURGIA 


isto importa, sem dúvida, deveres e responsabilidade, mas, 
em compensação, que riqueza de ajuda e de conforto! 

* 

E eis-nos na Santa Missa. 

Certamente em nenhum rito o sentido social manifesta- 
-se e educa-se melhor que na S. Missa. Nascida numa sala 
de jantar — o cenáculo — , selada com um preceito de amor: 
“Amai-vos como Eu vos amei!”, ilustrado, êste preceito, por 
um gesto significativo, o serviço prestado por Jesus aos Após- 
tolos lavando-lhes os pés (“o Filho do Homem não veio para 
ser servido, mas para servir”); a Missa tem logo acentuado, 
pela comunidade cristã de Corinto, o seu sentido comunitá- 
rio, ao associar-lhe o ágape. 

Necessário não era, porém, relevar esta divina e gran- 
diosa realidade, situada no centro da vida do cristão, da 
Igreja e do mundo ! 

Roma não teve, talvez, jamais, 0 ágape; a África, tão 
vizinha de Roma naquela época, o teve, mas separado da 
Missa ... 

É já tão grande e luminoso o sentido da sobrenatural 
fraternidade da Missa, e já tão poderosa e eficazmente 
alimentado ! 

Porque a Missa é uma assembléia; bem mais: a assem- 
bléia dos filhos de Deus que se reunem na Casa do Pai Lêde 
o cap. XX dos Atos, o cap. 67 da Primeira Apologia de São 
na Jerusalém celeste, quando retorna o “Dia do Senhor”, 
Justino: é a sinaxe dominical; esta grande família, frac- 
cionada pelas várias cidades terrenas, à espera de reunir-se 
reime-se, verdadeiramente “família de Deus”. . . 

Reunir-se é reconhecer estar-se ligado por vínculos co- 
muns; é encontrar-se para um fim comum. Êste fim é a 
audição da palavra de Deus, guardada e dispensada pela 
Igreja; é a unidade de sentimentos no responder a essa pa- 
lavra com as invocações comuns, com o ato comum de fé . . . 

Mas é sobretudo unir-se e sentir-se unido no prestar a 
Deus um culto adequado, digno de Sua Grandeza infinita, 
oferecendo-se todos juntos — nos servi tui, sed et plebs tua 
sancta — a Vítima augusta é Jesus, e nós próprios com Êle. 

Nesse momento o vínculo da sociabilidade perene e.s- 
treita-se. A assembléia sente que é a família de Deus, com 
Quem Cristo, primogênito de u’a multidão de irmãos, recon- 


— 38 — 


CARDEAL 


L E R C A R O 


ciliou-a, lavando-a com o sangue de Sua cruz, cujo mistério 
renovou-se sôbre o altar. 

Sôbre essa assembléia agora Deus pousa Seus olhos com 
paterna complacência e a Êle sobe, de parte do Celebrante 
e de todos os presentes, a saudação filial: “Pai nosso . . 
com o pedido tão eminentemente filial; “o pão nosso de 
cada dia nos dai hoje ...” 

E Deus parte sôbre o altar, pelas mãos do sacerdote, o 
Pão que o gesto e as palavras de Jesus, renovados na anáfora 
pelo Celebrante, transmutaram no Corpo e Sangue de Cristo, 
tal um pai de família que tem ao redor da mesa a coroa dos 
filhos e divide entre êles o grande pão da casa, fruto de seu 
esfôrço, de seu suor e, de certo modo, de seu sangue, com o 
qual nutre e cria seus filhos. 

Assim os filhos, entre os quais o pão é dividido, são ci- 
mentados no sentido da fraternidade; aquêle único pão 
dividido entre todos une-os todos ao pai e todos entre si . , . 

Com bem mais profunda verdade o pão eucarístico, que, 
não por transposição de termos, porém verdadeira, real e 
substancialmente é carne e sangue do Filho de Deus, divi- 
dido entre nós, não só nos une ao Cristo que se faz alimento 
de nossas almas, mas vincula-nos também, poderosamente, 
ans aos outros: “Nós todos”, escreve São Paulo de modo tão 
convincente, “somos um só corpo, quantos participamos de 
um só Pão”. E o sangue de Cristo, que misteriosamente 
circula em nós. faz-nos, segundo a observação de Crisóstomo, 
consaguíneos de Cristo, e ainda, por conseqüência lógica, 
consaguíneos entre nós, uma fraternidade, pois, germana ! 

As primeiras comunidades cristãs ressaltaram o sentido 
profundo da fracção do pão, e por êste nome, nos escritos 
apostólicos e ainda na Didachê, é chamada a eucaristia; 
entreviram, também, com lucidez, as conseqências sociais 
práticas desta realidade divinamente oferecida aos homens: 
“Se temos em comum os bens celestes”, comenta já nos al- 
bores do II século a Didachê, como não colocarmos em comum 
com os necessitados os bens terrenos ?” 

A ilação é perfeitamente lógica e dá à vida do cristão 
e da comunidade cristã um sentido e uma direção tôda 
nova; sentido e direção que, se, no impulso da primeira cris- 
tandade hierosolimitana pôde elevar-se à distribuição dos 
bens entre aquelas vocações privilegiadas, na praxe das Igre- 
jas paulinas encontrou seu curso adequadp às exigência.s. 
comuns da vida cristã. 


— 39 — 


SENTIDO 


COMUNITÁRIO 


Esta é eminentemente vida de fraternidade, repousando 
no mistério do Cristo, que. Filho único de Deus, tornou-se 
nosso Irmão para dar-nos o privilégio de com Êle ter em 
comum a suave paternidade do Senhor. 

A ilação da Didachê é, sem dúvida, empenhadora. Alguém 
que a leu um dia defronte à mesa de meu altar doméstico 
— onde eu a quis adptada na frase restritiva; “Se dividimos 
entre nós o pão celeste, como não dividiremos entre nós o 
pão terreno ?”, observou que era dura . . . 

Não, não é dura. É lógica; é formadora; é empenhadora, 
também, ante o egoísmo ávido com que nos atiramos sôbre 
bens que, divididos, apoucam-se. Mas não é dura: é antes 
a condição para que a vida seja bela e alegre, vida da fa- 
milia, de tôda a comunidade, do mundo . . . 

“Vêde quão belo é viverem juntos os irmãos ! E como 
um perfume que, derramado sôbre a cabeça, desce até as 
orlas das vestes; é como o orvalho a emperlar o Hermon . . . 
Pois Deus, lá onde assim se vive, manda sua bênção e a vida 
eterna ...” Assim já cantava o Salmo . . . 

Não é dura, embora empenhadora, aquela ilação que 
consubstancia todo um profundo senso evangélico; porque 
aquêle Pão celeste que, sem egoismo, fàcilmente temos em 
comum, não só significa e importa a comunhão dos bens 
terrenos, mas nutre em nós o espírito de caridade, que a 
torna menos difícil e atenua as reações do egoismo . . . 
“Spiritus nobis. Domine, tuae charitatis infunde, ut quos uno 
Pane coelesti satiasti, tua facias pietate concordes ...” 

Assim, na Liturgia por excelência que é a S. Missa, tudo, 
mas sobretudo a Comunhão, com vigor sobrenatural educa 
no espírito de fraternidade, em autêntico sentido social. 

É de precaver-se apenas de um perigo, para nós homens, 
sempre presente ; o de aviltar as coisas mais belas . . . Parece 
sbsurdo, mas é verdade, embora paradoxal: uma devoção não 
esclarecida pode tentar tornar a ação litúrgica, mesmo a 
Comunhão, um gesto individualístico, quase egoístico, de 
forma que, ao aproximar-se da mesa do Pai, ignorem-se os 
irmãos. 

Que fazer ? Retomar o contacto vivo com a Liturgia, 
sua história, seu espírito; alargar e aprofundar a partici- 
pação ativa: a visão se amplia e o desígnio misterioso de 
Deus reaparece em sua beleza luminosa: “Todos somos um 
só corpo em Cristo Jesus, Nosso Senhor” ! 


40 — 


Vm pieneire íIsè música 
iníliana a serviçe 
íla lííi^cía 

Por C. WEIRICH 

> Do Osservatore Romano, Ed. Francesa, 8-8-63) 


Quem visita as pitorescas regiões da Índia fica impres- 
sionado ao ver a que ponto o canto é um elemento insepará- 
vel da vida quotidiana da população. O indiano canta não 
apenas nas festas, mas também durante o trabalho; o cam- 
pónio atraz de sua charrua, o viajor sôbre a estrada poeiren- 
ta, o operário manejando seus instrumentos, o vendedor de 
nozes nas estações. Durante longas festas noturnas, vilas 
inteiras fazem ouvir seu canto, ao som do tambor e de pal- 
mas ritmadas. Freqüentemente os versos são improvisados. 
É uma tradição secular. 

No decurso da primeira sessão do Concilio Ecumênico 
ressaltou-se a importância que hã em adaptar os meios de 
difusão da fé às características particulares de cada povo, es- 
pecialmente em terra de missão, a fim de que a religião do 
Cristo, que é universal, não apareça como um objeto de im- 
portação, mas possa aí viver com um patrimônio próprio. 
De onde a necessidade de inserir a fé nos hábitos caracterís- 
ticos do pais, desde que êstes possam adaptar-se ao conceito 
universal da verdade. 

No que diz respeito à Índia, um dos meios eficazes para 
ali fazer penetrar e florescer o Cristianismo é o canto segun- 
do a mentalidade e costumes locais, visto que a música oci- 
dental ali não é compreendida e afasta as almas em vez de 
atraí-las. Os próprios cristãos cantam nas melodias do país 
as verdades da fé e os fatos história bíblica e dos Evangelhos. 
È por vêzes emocionante ouvir-se um simples campónio, a 


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UM PIONEIRO DA MÚSICA INDIANA 


miude inculto, cantar em seus cantos o que êle sabe do Cristo 
e da Virgem, enquanto outros escutam e repetem em seguida, 
cantando, as suas palavras. 

Há também verdadeiras obras literárias, os “cantos dos 
heróis” religiosos, como o famoso ISAYAN dos antigos cristãos 
de Bettiah. que contém tôda a Biblia e a doutrina cristã, ou 
o MüSIBAT, que é um canto sôbre a paixão do Cristo. Mas 
o que surjjreende é que também com freqüência, em vilas de 
todo pagãs, é cantado de cór o KIRTANS cristão, aprendido 
de alguém em outras ocasiões, pois até lá nenhum missionário 
jamais puzera os pés. Como assim, pois? Precisamente por- 
que, em sua música, o indiano encontra de nôvo a expressão 
da alma popular que compreende e de imediato acolhe. 

As iniciativas do P. Edmond Packwood, Capuchinho. 

S. Exc. D. Leonard, Bispo de Allahabad em interessante 
artigo do número de dezembro de 1962 da revista alemã 
DIE KATHOLISCHEN MISSIONEN, fala-nos de modo elo- 
qüente do sentido inestimável da música religiosa para a 
Igreja e o apostolado missionário na índia. Os missionários, é 
verdade, já havia algum tempo, estavam convencidos disto, 
mas as tentativas isoladas visando criar um música religiosa 
indiana somente deram lugar a uma instituição permanente 
em 1947, quando da chegada na índia do Capuchinho cana- 
dense P. Edmond Packwood, que conseguiu criar uma obra 
capaz de dar á Igreja na índia sua própria música. 

O humilde filho de S. Francisco, técnico em música oci- 
dental, especialmente em canto gregoriano, possuia também 
o raro dom de compreender de desempenhar seu duro apos- 
tolado missionário, pôs-se imediatamente a estudar a música 
hindustânica para fazê-la servir a seu trabalho apostólico. 
Ao fim de seis anos, conhecia-a tão bem que podia, em no- 
vembro de 1954, bacharelar-se na PRAYAD SANGIT SAMITI 
de Allahabad, uma das mais famosas academias de música 
da índia setentrional, e, um ano depois, obter o grau de pro- 
fessor, reconhecido pelo Estado. 

Começou então a escrever música indo-cristã utilizando 
a notação indiana, pois as notas ocidentais não são adapta- 
das às exigências particulares da música indiana. Depois, 
em 1956, abriu uma escola de verão de música indiana em 
Naukuchiatel, nos promontórios do Himalaya, para preparar 
os alunos aos exames do Estado. Em cinco anos, até à sua 


— 42 — 


C. WEI RICH 

inorte, formou 407 estudantes, americanos e europeus, india- 
nos, paquistãos e ceilonenses, dos quais 78 sacerdotes, 122 se- 
minaristas ou irmãos conversos, 130 irmãs e 72 leigos de am- 
bos os sexos. A escola era mesmo freqüentada por 5 pastores 
anglicanos. A PRAYAD SANGIT SAMITI de Allabahad tanto 
apreciou sua iniciativa que não tardou a colocar à sua dispo- 
sição, para seus cursos, seus próprios professôres. No verão 
de 1960 êle criou mesmo um segundo curso para o canto 
coral gregoriano . 

Grande reconhecimento dos indianos cultos 

Além de sua atividade já extraordinária, o P. Emond 
pensou em prosseguir seus estudos musicais e, em 1957, tor- 
nou-se MASTER OF ARTS, não por amor a graus e diplomas 
indianos, mas porque julgava que êsses atestados oficiais po- 
diam servir-lhe para fazer conhecer sua obra em favor da 
música cristã indiana, especialmente nos meios cultos. En- 
fim pieparou-se para obter o diploma de SANGITACHARYA, 
isto é, de música indiana, em dos mais ilustres Institutos 
superiores de música da índia; o AKHILA BHARATIYA 
GANDHARVA MAHA-VIDYALAYA MANDAL, com sede em 
Puna. Começou a escrever seu estudo comparado dos três 
tipos de música: grego, gregoriano e indiano. A morte fez 
tombar a pena de suas mãos. 

Já numa conferência em Allahabad, diante de um gru- 
po de peritos em música, e que suscitou interêsse extraordi- 
nário, êle avançara a tese de que a música gregoriana era de 
origem grega e a música grega tinha sofrido a influência da 
música indiana. Esta opinião não era compartilhada por to- 
dos os peritos. De qualquer modo ela lançara novas luzes 
sôbre a questão. É verdadeiramente lamentável que o P. 
Edm.ond não tenha podido terminar êste estudo, mas não é 
im.possivel, como o esperamos aliás, que outros venham pros- 
seguir èsse trabalho de pesquisa, tão importante para o mun- 
do musical. Seja como fôr, o P. Edmond conquistara para 
sempre o grande reconhecimento dos indianos cultos por sua 
música reliiogsa indiana, como diremos. 

Sua grande atividade de músico 

Não contente de dar um ensinamento teórico e prático, 
0 P. Edmond criou novas composições de música indo-cristã. 


— 43 — 


UM PIONEIRO DA MÚSICA INDIANA 


Em 1957 saiu seu KRISTYAG, acompanhamento musical das 
partes fixas da Santa Missa, com texto em sânscrito. Para a 
mesma música escreveu em seguida o texto em indiano. 
Compôs diversas dansas religiosas sôbre as parábolas e cenas 
do Evangelho, inspirando-se em parte nos salmos do P. Gé- 
lineau, que os peritos julgam aliás convir melhor a um mú- 
sico autóctone. Muitos dêsses salmos foram igualmente gra- 
vados em discos na coleção DISQUES LUMEN de Paris. Lem- 
bremos ainda que êle compôs a maior parte da música do 
catecismo, outra característica do país, para facilitar à popu- 
lação os ensinamentos da Igreja; duas coletâneas de cantos 
de escola e uma série de cantos litúrgicos, para as diferentes 
partes do ano eclesiástico. Deve-se notar também seu impor- 
tante curso por correspondência sôbre a música hindustàni- 
ca, começado em 1956 e que devia durar oito anos. Quando de 
sua morte já tinham sido publicadas 60 lições em 295 pági- 
nas, com as instruções necessárias para obter o diploma 
PROBAKHAR, conferido depois do exame pela PRAYAD 
SANGIT SAMIT de Allahabad. Em 1960 enfim, êle começou 
a publicação duma revista trimestral, o S.S.H.M. Musical 
Bulletin, para fazer conhecer a melhor música religiosa, tan- 
to indiana como gregoriana; 6 fascículos já apareceram e êle 
deixou material para mais quatro outros números. 

D. Raymond, bispo de Allahabad, explica-o em seu arti- 
go. “O segrêdo de sua energia extraordinária no trabalho 
estava em sua fé sólida no valor apostólico do empreendimen- 
to . Encontrara na música indiana um meio de expressão par- 
ticularmente adaptada á mentalidade indiana, para propa- 
gar o Evangelho. Queria lançar uma ponte extremamente 
sólida e só o podia contentar o melhor e mais belo resultado . 
Queria criar uma música que pudesse ser ao mesmo tempo 
respeitada e apreciada pelos indianos cultos. Os elogios que 
lhe fizeram numerosos indianos peritos em música provam 
que 0 conseguiu plenamente. 

O segrêdo de sua energia de trabalho era também o se- 
grêdo de seu sucesso. O P. Jayakody O.M.I. de Ceilão, di- 
zia, com efeito: “O P. Edmond introduziu a música, a arte e 
as tradições da índia na Igreja, tão bem que o povo não pode 
mais sentir-se estrangeiro no templo de Deus”. Um profes- 
sor de música hindu bastante conhecido, declarava pública- 
mente: “Na índia temos dado demasiado espaço à música 
clássica, música de virtuose que diz muito pouco ao povo sim- 
ples. A escola do P. Edmond, ao contrário, dá uma forma de 


— 44 — 


C. WEI RICH 


música que é efetivamente indiana e ao mesmo tempo um 
canto autêntico da comunidade”. 

Graças aos subsidios de católicos alemães foi construído 
em Allahabad um centro para os estudantes católicos de mú- 
sica na SANGIT SAMIT. desejar-se-ia, agora, abrir uma se- 
gunda escola de verão de música religiosa indiana. O Irmão 
Vijay Anand, de Allahabad, foi encarregado de prosseguir a 
obra magnífica do P. Edmond, de quem foi aluno e, depois, 
colaborador. ‘‘Se queremos verdadeiramente a conversão da 
Índia”, conclúi o bispo de Allahabad, ‘‘devemos descobrir uma 
linguagem que seja compreendida, apreciada e admirada pelo 
indiano culto, consciente da tradição e da cultura de seu pró- 
prio país . 


SEMflNfl DE ESTUDOS GREGORIANOS 

19 a 30 de Janeiro de 1964 
SÃO PAULO 

o I.XSTrrrTí') no X do rio de JAXKIRO através (la 
ESCOLA REGIOXAL DE S. PAL^^LO promove êste curso de 
Cântico Gregoriano, com os 4 anos do currículo. Será dado tam- 
bém um curso de LITURGI.\ e celebrados comunitàriamente Mis- 
sas e (^ficios cantados. 

I.oc.al : COLÉGIO ASSUXÇAO, Alameda Lorena 655, 

tel . : 8o-g66y . 

Horário dos cursos: 8,30 às 11,30 e 13,30 às 1630. 

,S 7 .1 / 1 7 , ÍNBA .1 Ill\ TE : 

-MÉTODO “lí^ARD'’ para o ensino da Música às crianças. 
— Encontro de 30 de Janeiro a i.° de Fevereiro de todos os 
diplomados pelo T^nTITL^TO para debaterem problemas de téc- 
nica e didática gregoriana. 

IXrOIUÍ AÇÕES E INSCRIÇÕES: 

— Instituto Pio X do Rio de janeiro, Rua Real Grandeza 108. 
Botafogo, GB — Tel. 26-1822. 

— Escola Regional de Canto Gregoriano. Colé.gio das Cônegas 
de Santo .A.gostinho, Rua Caio Prado 232^ S Paulo, SP — 
Tel. 3-1 -1226. 


— 45 — 


VIDA DO INSTITUTO PIO X 


CRÓNICA DA SEMANA GREGORIANA DO 
RIO DE JANEIRO 
JULHO DE 1963 

Mais uma vez as Madres Beneditinas do Colégio Santo 
Amaro reservaram aos semanistas uma hospitalidade já tra- 
dicional entre nós, e desde a chegada, sentimo-nos “em casa”. 
(Aqui deixamos os nossos sinceros agradecimentos a tôda a 
comunidade) . _ 

Iniciou-se a Semana com a Missa de Nossa Senhora do 
Carmo, muito bem cantada sob a regência do Padre Nereu 
de Castro Teixeira. O celebrante Dom João Evangelista diri- 
giu-nos a sua palavra entusiasta, bela e profunda, pondo em 
lelêvo o valor espiritual do canto gregoriano. 

Às 8h.30 do dia seguinte, os 4 anos entregaram-se ao 
tjabalho quase “forçado”. O l.° ano ficou aos cuidados da 
Irmã Filomena dos Santos Anjos, experimentada e eficiente; 
o 2.0 ano à nossa cara e incansável Dona Laura, que tam- 
bém fêz uma “incursão salmódica” no 3. o ano, uma vez por 
dia, a fim de permitir ao Padre Nereu, que se dedicasse com 
tôda sua competência aos futuros “Regentes” do 4.® ano 
Para permitir a incursão de Dona Laura no 3. o ano, uma 
“incursão de solfejo e de contagem” foi feita no 2.o ano por 
M. Marie du Rédempteur. Nosso trabalho, porém, não era 
só sério. Após o almoço, pelas 13 horas, havia um recreio 
“folklórico” com o Padre Nereu e seu violão. De todos os 
cantos bonitos que nos ensinou, um se tornou o nosso favo- 
rito: “Meu São Benedito...” 

As 13h.30, o trabalho retornava o seu ritmo e, depois 
da merenda, reuníamo-nos ao redor de Dom João Evange- 
lista para o ensaio, único monrento do dia que passava 
tntre nós. 

Os dias passavam depressa demais. Chegou o sábado 
cue se a.ssinalou por uma nota diferente. Os 62 semanistas 


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VIDA 


D O 


INSTITUTO 


PIO 


X 


e os Professores distribuiram-se (não sei como!) pelos luga- 
res de um ônibus do Colégio que as Madres puseram amavel- 
mente à nossa disposição, para nos levar à Rádio do Minis- 
tério de Educação. Dom João Evangelista tem lá, todo sá- 
bado, sua meia hora, e êle fêz um programa especial, per- 
mitindo a execução de várias peças do comum e do próprio 
tempo. Depois desta gravação fizemos uma outra de modo 
que houvesse um disco ao alcance de todos. 

Outra experiência interessante foi a da televisão, 4.^ fei- 
ra, horário especial — inicio das aulas às 13 horas — às 17 
horas e poucos minutos, mais uma vez, o ônibus do Colégio 
levou-nos ao Canal 9 e às 18 horas levamos ao ar três peças 
do nosso tão belo gregoriano — o introito do IP domingo 
depois Pentecostes, “Omnes gentes plaudite manibus” — o 
Alleluia da missa de SanfAna e o lindo ofertório “Ave Maria” 
do 4P domingo de Advento. Mas, o público precisa saber 
que nós nos divertimos com coisas mais leves — o Padre 
Nereu tomou seu violão para cantar “Meu São Benedito” . . . 

Depois do ensaio de sexta-feira, a alegria do “Ccr unum”' 
expandiu-se numa sessão humoristica, sob a direção de Pa- 
dre Nereu, que tem um repertório inesgotável de canções e 
histórias. 

Eis que a Semana se acabou, todos unidos no Sacrifício 
da Missa, como no início, missa de SanfAna muito bem exe- 
cutada sob a regência de D. João Evangelista. No “café 
festivo”, teve o Diretor do Instituto a satisfação de dar mais 
6 diplomas de Regência, sendo os laureados calorosamente 
aplaudidos. 

E não faltou nesses dias, a presença amiga de Mlle. 
Jeanne Coutela, sempre gentil e solícita para nos ajudar nas 
compras e encomendas de livros. Muito obrigada. 

A visita rapidíssima de Irmã Maria Lina nos deu grande 
prazer . 

Lamentamos a ausência de Mêre Marie Rose, que se 
achava em retiro espiritual, mas sentimo-la pela oração. Que 
Deus continue abençoando a semente por ela plantada já 
ná 11 anos e cujos ideais e sacrifícios sustentam e frutifi- 
cam nossa grande, mas humilde obra. 

MÉTODO WARD NO INSTITUTO SANTA ESCOLÁSTICA 

“Os Passarinhos do Santa E.scolástica”, como êles se 
chamam a si mesmos, são alunos e alunas do Curso Primá- 


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^ I D A 


D O 


INSTITUTO 


PIO 


X 


lio do Instituto Educacional Santa Escolástica. Ansiosos por 
saberem cantar bem, rivalizam-se em zêlo com a professora 
do Método, logo que a encontram êles vêm voando e se quei- 
xando: — Por que não veio cantar conosco?... 

Pois bem. Desejo apenas mostrar, de modo concreto, 
como as crianças gostam dêste método maravilhoso. 

Começamos em 1961, com uma turminha de voluntários 
que hoje, licitamente orgulhoso se consideram os “pioneiros”. 
Todos os dias, meia hora antes do início das aulas, reúnem-se 
meninas do 2.°, 3.° e 4.° anos. Deixam de lado sorvete e re- 
creio com as demais colegas, para brincar com sons puros e 
delicados, para jogar, não com a bola, mas com um belo 
“n-u . . . . ” pelo ar. A demonstração feita no fim do ano 
escolar foi um verdadeiro sucesso. Os “passarinhos pionei- 
ros” exultaram com o aplauso geral dos colegas e professoras. 

1962. Depois da 2.^ semana do Método Ward, Curso 
Normal, em São Paulo, alargaram-se os horizontes, portan- 
to, novas espectativas. 

Constatamos que o número dos pioneiros se reduzira a 
15, mas êstes 15 enfrentaram corajosamente o 2.o ano do 
M.W. Entretanto, chegaram outros 30 passarinhos, l.^ano 
feminino, uma classe inteira, para a qual a professora re- 
servou diáriamente o tempinho necessário. E esta boa pro- 
fessora não se arrependeu: o desenvolvimento de suas alunas 
superou consideràvelmente ao das da outra classe da mesma 
série. Assim, a verificação dêste resultado veio confirmar 
que “a educação musical é um elemento fundamental para 
■o desenvolvimento intelectual e a formação do caráter". 

A fiel progressão dos exercícios trazia, dia por dia, agra- 
dável surprêsa: — Que novidade haverá hoje? Sobretudo, 
as composições espontâneas dos “pioneiros”, despertaram 
entusiasmo sempre crescente. Experimentavam o valor do 
próprio esfôrço e a satisfação crescia quando uma, outra, 
inais outra melodia de sua autoria passavam por todo o 
Curso Primário. Tôda a criançada desejava cantar esta ou 
aquela canção que um dos “passarinhos” fêz. Tudo isto se 
foi realizando com naturalidade, desconhecendo por com- 
pleto qualquer presunção. 

Nos programas das festinhas escolares, sempre foram 
incluídos vários números executados pelos “Passarinhos”. 
E, num domingo, tôda a passarada alçou vôo, quer dizer, um 
um vôo em “jeeps”, até um asilo de crianças órfãs, para 
cantar e alegrar-se com elas. 


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VIDA 


D O 


INSTITUTO 


PIO 


X 


1963 ! Infelizmente não houve em janeiro a continua- 
ção do Curso Normal. E agora?! Dizer aos Passarinhos 
que a festa acabou ? Impossível ! Na última hora veio-me 
uma boa idéia; Os mesmos Passarinhos “pioneiros” deverão 
ensinar os “filhotes”. Sendo assim, ficou estabelecido o se- 
guinte, para êste ano escolar de 1963: 

Cada “ROUXINOL” — é o nome atual dos “pioneiros” — 
recebe de tempo em tempo uma ficha com a tarefa minuciosa- 
mente indicada para a lição a ser dada. Prepara-se, consul- 
ta-me, pensa e, no seu dia, ansiosamente esperado, transmite 
aos outros Passarinhos a lição. São 30 os novos Passarinhos, 
a saber; “Bem-te-vis” (alunas do 3.® ano) e “Beija-flôres” 
( 1.0 ano) . 

Para êste fim, chegam êles à escola meia hora antes das 
aulas. Que prazer! Parece que as novas professorinhas têm 
um dom especial para transmitir o “como produzir” um belo 
som. A progressão destas aulinhas gostosas não difere em 
nada do método de Madame Ward. Dia por dia, um passo 
para a frente no mundo dos sons puros e dos ritmos perfeitos. 
O rouxinolzinho, chegado o “seu dia”, lá está no seu pôsto, 
de fichinha e varinha, fazendo “ritmar e cantar bem” sua 
turma. 

Mais três classes do Curso Primário abriram suas portas 
para o Método Ward. — Nós também queremos aprender, 
ciisse a série B do 2.° feminino e os garotos do l.o e 2P anos. 
Mas, infelizmente, o tempo da única professôra não se tri- 
plica. Então, vamos descobrir outro geitinho! Como tôda 
gente que quer coisas valiosas, com pouco dinheiro, paga-as 
a prestação, resolvemos o caso assim; a primeira hora do 
tempo inicial das aulas será dedicada aos meninos, l.o e 2P 
anos, alternadamente e, pelo fim das aulas, 20 minutos às 
jneninas do 2P ano A e B, também alternando. Certamen- 
te, o desenvolvimento é mais lento, mas o método em nada 
fica prejudicado. 

Se assim não se procedesse, as crianças ficariam priva- 
das daquela alegria e gôzo que lhes brilham nos olhos ao 
aprenderem, brincando, tudo o que lhes é necessário para, 
mais dignamente, entoar os louvores ao nosso amantíssimo 
Criador e Redentor. 


Sorocaba, 24 de agôsto de 1963 

Sr. M. Siegtrud Ibscher O. S. B. 


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D O 


INSTITUTO 


PIO 


X 


VIDA DA ESCOLA PIO X DE PÔRTO ALEGRE — 

MISSA GREGORIANA CANTADA POR CRIANÇAS 

“Da bôca das crianças e dos 'pequeninos 
sai Vosso louvor” (Sl. 8, 3) . 

O “Dia Nacional da Santa Infância” foi comemorado, 
neste ano, com inusitado esplendor na paróquia São Fran- 
cisco de Assis, Pôrto Alegre. Foi celebrada uma missa fes- 
tiva em Canto Gregoriano (Missa XVI — Glória XV — Credo 
III), executada por 104 crianças da paróquia. 

Foram necessários dois meses de ensaios, quase diários, 
ás vêzes prejudicados pelo tempo desfavorável. Mas o resul- 
tado de tão árdua iniciativa foi altamente compensador. 
A missa saiu muito bem: ritmo perfeito, pronúncia romana 
do latim, e afinação, que pouco deixou a desejar. A empol- 
gante solenidade, irradiada pela Rádio Difusora de P. Alegre, 
causou grande alegria ás crianças, aos pais e aos fiéis, que 
lotaram completamente a ampla igreja, sem dúvida uma das 
mais belas da Capital gaúcha. 

Pe. Frei Emílio Scheid, O.F.M. 


VIDA DA ESCOLA PIO X DE PÔRTO ALEGRE — 
ADORAÇÃO EUCARÍSTICA COM 
VÉSPERAS CANTADAS 

“Para que Deus fôsse louvado convenientemente, pelo 
homem, o próprio Deus louvou a Si mesmo; e, porque Êle se 
dignou louvar a Si mesmío, o homem encontrou a maneira 
de melhor louvá-lO.” (St.° Agostinho) . 

Depois do Santo Sacrifício da Missa, é o Oficio Divino, 
prece do Corpo Mistico de Cristo, a mais perfeita adoração 
e ação de graças que possamos render a Deus. 

Desenvolvendo com entusiasmo êstes pensamentos. Frei 
Emílio Scheid, na festa da SSma. Trindade, incentivava o 
canto das Vésperas, durante a Hora Santa Eucarística das 
Religiosas, na Igreja das Dôres, sede da Adoração Perpétua. 

Vésperas cantadas, uma iniciativa muito louvável da 
Escola Pio X de Pôrto Alegre. Desde maio, o canto das 
Vésperas, vem sendo a grande atração do segundo domingo 
de cada mês, e nossa adoração toma assim um significado 

— 50 — 


^'IDA DO INSTITUTO PIO X 

mais amplo e mais consolador. Ao som do órgão, centenas 
de vozes se unem no canto dos salmos, anunciando com nova 
alegria, o louvor e a glória da Graça de Deus. 

Fazendo votos que dêste “comêço entusiasta” se chegue 
logo mais a um “poderoso uníssono”, nós louvamos a dedi- 
cação de nossos mestres, que, sem medir sacrifícios, nos pro- 
porcionam assim, um contato mais profundo, com as verda- 
deiras fontes de espiritualidade. 


Irmã Ruth Maria 


IV SEMANA GREGORIANA DE PÒRTO ALEGRE. 

(11-21 de julho) 

A IV Semana Gregoriana de Pórto Alegre, realizada no 
Colégio Sévigné, foi iniciada com missa cantada, com a cola- 
boração do côro dos teólogos Capuchinhos e das Irmãs 
Franciscanas da Santa Casa de Misericórdia. Inscreveram- 
-se aproximadamente 70 alunos, na maioria Religiosas de 
diversas Congregações. 

Pela primeira vez funcionou o Curso completo de Canto 
Gregoriano, com seus 4 anos. No I ano estreou o Revdo. 
Pe. Octávio Ritter; no II lecionou Frei Emílio Scheid, OFM, 
e no III-IV Frei Gil de Roca Sales, OMC. Além da matéria- 
-base: Canto Gregoriano, foram ministradas as seguintes 
matérias auxiliares: solfejo, pelo Prof. Armando Albuquer- 
que; técnica vocal, pelas professôras Mirtes Matte e Made- 
leine Ruffier; conferências sôbre liturgia, pelo Revdo. Côn. 
Albano Kreutz. 

O solene encerramento foi feito na Catedral Metropo- 
litana com missa cantada, sendo regente o Revdo. Frei Gil 
e comentador o Revdo. Côn. Albano Kreutz. Ao evangelho 
íêz uso da palavra o Sr, Arcebispo metropolitano, congra- 
tulando-se com mais esta iniciativa da Escola Pio X e esti- 
mulando os Semanistas a cultivarem e propagarem cada vez 
mais o autêntico canto da Igreja. A solenidade foi irradiada 
pela Rádio Difusora. 

Muito bom foi o aproveitamento dos alunos que apre- 
ciaram realmente o trabalho dos professores. Disto teste- 
munham as cartas que, depois, nos foram enviadas. 

Frei Emílio Scheid OFM. 


— 51 — 


Crônicas Radiofônicas 


JOÃO XXIII E AS QUATRO COLUNAS DA PAZ 


A figura de João .XX III, o l)oni Papa da conumicabilidade, da uni- 
dade e da Paz continua bem viva na memória daqueles que choraram sua 
morte porque foram cativados de adini ração por sua vida. A doutrina de 
João XXIII, esta, continuará também viva. e retornará frequentemente às 
cogitações dos (jue se preocupam com o destino da humanidade, pelo sim- 
j)les fato de terem consciência de sua condição humana. As vozes hu- 
manas que procuram a Deus serão sempre levadas a repetir, a reassumir 
essa. voz de um homem da terra Que realmente encontrou a Deus. 

Cremos que uma feliz idéia, dentre outras, expressa no magnífico 
discurso do Papa João XXIII proferido na Basílica de S. Pedro, por 
ocasião da solenidade em que S. Santidade recebeu o Prêmio'. Balzan da 
Paz, merece ser especialmente salientada e considerada entre nós. Fa- 
lando com sua habitual simplicidade e abrindo, realmente, com sinceridade, 
sea' coração de homem de Deus e que por isso mesmo mantinha vínculos 
de entendimento, de compreensão e de afeição dos mais estreitos com o 
coração de todos os homens, o Papa João XXIII referia-se ao ambiente 
que o cercava naquele momento soleníssimo e daí passa, qcase insensi- 
velmente. para importantes considerações doutrinárias sôbre o quádruplo 
fundamento da Paz na terra, segundo sua liltima e importante Pinciclica 
da última Páscoa: “Pacem in terris.” 

É o Papa João XXIII quem nos fala: “O segundo tenia de reflexões 
nos-é fornecido pelo quadro majestoso da Basílica Vaticana. Ela aparece, 
neste dia, penetrada da luz de um desses exemplos dos quais é tão rica a 
história da Igreja. O acontecimento de que se trata aqui, a celebração 
da paz, tem um sentido profundo que tocou o coração de todos. Somos 
as felizes testemunhas da unanimidáde que espontaneamente se fêz em 
torno de uma celebração memorável realizada em honra <la paz. lí vos 
convidamos a elevar o pensamento para aquêle que está na origem desta 
iniciativa: Eugênio Balzan. O humilde filho do mundo do trabalho tinha 
o olhar voltado para o futuro. Sei8 gesto permanecerá como benção para 
o exercício e para o serviço da verdadeira paz. , 

Nunca, talvez, como na circunstância presente, uma homenagem à 
glória da paz terá suscitado nos corações um tal impulso de espontanei- 


— 52 — 


CRÔNICAS 


RADIOFÓNICAS 


(]ade, cie simplicMade, de calor e de ternura. A paz, vista na luz de üeuh 
e refletindo-se no coração o.s homens, que espetácukc, caros filhos, e que 
delícia para o espírito e para c\ coração ! 

Mas, é um edifício que se constrói dia a dia, e sóhre bases sólida>_ 
Aqui, sob as arcadas da Basílica Vaticana, vemos alçar-se no céu de 
Roma a incomparável cúpula de Miguel Angelo. i\Ias, nós não nos po- 
demos esquecer que ela repousa sôbre quatro imponentes pilastras que- 
])enetram profundamente na terra até a rocha, esta rocha da qual se fala na 
conclusão do .sermão da montanha: “a casa edificada sóhre a rocha não 
foi arrastada pela tempestade” CMat. 7,25) Pois hem, a Paz é uma casa. 
é a casa de todos. É o arco que une a terra ao céu. Mas, para se elevar 
tão alto, precisa repousar sóhre quatro sólidas pilastras : aquelas que in- 
dicamos em Nossa Encíclica Pacein in tcrris: “A paz, dizíamos então., 
não passará de uma palavra fazia de significado se não estiver haseada 
sóhre a ordem que nó.s, comi férvida esperança, traçamos nesta Enciclica : 
ordem fundada sóhre a verdade, construída segundo a justiça, vivificada 
e completada pela caridade e realizada na liherdade” (Encíclica Pacem 
in terris, 5.“ parte). 

Estes quatro princípios, que sustentam todo o etlifício, pertencem ao 
direito natural, inscrito no coração de todos. Razão porque foi tamhém- 
a tôda a humanidade que dirigimos nossa exortação. Estamos, com efeito, 
convencidos de que no decurso dos anos que virão, à luz das experiênciaí, 
passadas e em uma apreciação objetiva e serena da linguagem da Igreja, 
a doutrina Que ela oferece ao mundo, se imporá por sua própria clareza.. 
.\presentada aos homens de hoje, afastada de qualquer deformação par- 
tidária, não é possivel que ela não faça aumentar no mundo o número 
daqueles- nos quais recairá o mérito e a glória de serem chamados cons- 
trutores e edificadores da Paz.” 

Não era a primeira vez que o otimismo do Papa ;d)alava e deixava- 
estupefacto o espirito dos homens de nosso tempo, homens de coração e 
ânimo esclerosados pelas repetidas desilusões com as realidades e idéia.-, 
que povoam nosso mundo. O otimismo do Papa parece-nos de uma pro- 
fundeza inegualável, sôa-nos como a profecia sobrenatural de um bom 
Profeta que eleva todos os corações para uma inabalável confiança no 
Reino de Ueus, do qual, a ordem pacífica da cidade terrena deverá set- 
um símbolo e uma antecipação profundamente desejada e pela qual se- 
deve trabalhar conr tôdas as forças. A palavra otimista do Papa parece 
jiartir da convicção de que é verdadeiramente impossível arrebaiíii— se 
0 Reino de Deus, isto é trabalhar para êle, crescer para êle, sem se tra- 
balhar simultâneamente para sua antecipaqão entre os homens. Isso por- 
(|ue a substância da conquista daquele é o meio primordial do estabeleci- 
mento dêste: a caridade, o amor com todo cortejo das virtudes cristãs 
que necessariamente o acompanham. Assim, poder-se-ia audaciosamente 
dizer que da mesma forma como é impossível amar a Deus sem amar 
o próximo, é impossível arrebatar o Reino, de Deus pelo amor, sem Que 
êsse amor de algum modo contribua eficazmente para instalação de uma 
.'ubstancial ordem de Paz, de uma paz verdadeira entre os homens. Creio, 


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CRÓNICAS 


RADIOFÓNICAS 


■'Cr i'SSu iinui. senão :i explicaí^ão do notável otimismo e dom i>rofético do 
F’apa João XXTIJ <juanto à paz entre os liomens. Não raro o otimismo 
em geral é fàcilmentc explicado e exi)licável pelas condições de equilíbrio 
humano, natural, físico da j^essoa (pie o iiossui. N^inguém nega que a 
-,;essoa de João XXIII o inclinasse para o otimismo, ninguém porém ad- 
mitirá, com algo natural, que o admirável ancião pudesse permanecer 
Immanamente indiferente às situações angustiosas de todo o gênero que o 
cercavam e ainda mais ao seu próprio estado de saúde que êle sentia e 
sabia perfeitamente, com tòda a lucidez e clareza, ser gravíssimo, o que 
(I levava a dizer que aguardava a morte a qualquer momento. “Come- 
çamos o nosso octogéssimo segundo ano de vida, chegaremos ao fim? 
Todos os dias são bons para morrer.” , 

Seria talvez licito perguntar se precisamente essa situação diante da 
morte não o colocava de tal forma jiróxinio da grande esperança dei todo 
o cristão, da esperança do Reino de Deus, centro do Evangelho de Cristo, 
que já lhe fôsse dado ver êsse Reino como objeto de uma fé certíssima, 
considerando-o também em sua tão natural quanto almejada antecipação 
entre os homens. 

Ê certamente verdade que tudo aquilo que descobrimos e vemos com 
grande clareza custamos a admitir não seja também visto, apreciado, 
amado por todos os que nos cercam. Por isso o Santo Padre diria com 
candura quase infantil — Que a Sabedoria às vêzes escolhe para se ex- 
jjrimir — estar convencido, nada menos que isso, convencido, que “no 
decurso dos anos que virão, à luz das experiências passadas e em uma 
apreciação objetiva e serena da linguagem da Igreja, a doutrina que ela 
oferece ao mundo se imporá por sua própria clareza. Apresentada aos 
liomens de hoje, afastada de qualquer deformação partidária, não é pos- 
-ivel — são bem essas as palavras — não é possível que ela não faça 
aumentar no mundo o número daqueles nos quais recairá o mérito e a 
glória de serem chamados construtores e edificadores da Paz.” Diante 
«lessa palavra que vem da eternidade, confiante e segura, que nos soa como 
a palavra do próprio Cristo, também ela otimista, mandando ensinar e 
batizar a todo o mundo, sentimo-nos como que obrigados, como homens e 
como cristãos, a nos debruçarmos sôbre os fundamentos apontados pelo 
Pajia e a considerá-los com tôda a atenção e desvêlo. É oi que será ob- 
jeto de futuras considerações. , 


(Transmissão de 15.6.63) 


LIBERDADE, PARA QUE? 

A casa da Paz, a grande casa de todos, desejada por todos, ergue-se 
alto para o céu, fundamentada em quatro sólidas pilastras. A paz con- 
sistirá em uma ordem que se funda sôbre a verdade, construída segundo 
a justiça, completada pela caridade e realizada na liberdade. Aí está a 
ihoje repetida síntese formulada por João XXIII como o testamento in- 


— 54 — 


CRÓNICAS 


RADIOFÔNICAS 


substituível da mensagem evangélica aplicada ao âmbito social de nosso 
tempo, em dimensão universal. O testamento doutrinário do querido Papa 
João tem a nota profética de sua palavra de convicqão na fecundidade que 
estas idéias exerciam — é impossível que não exerçam, dizia êle, na 
mente e no espírito dos homens de boa vontade que habitam a terra. 

A convicção do dom profético é selada com a morte, a morte lúcida 
e serena que demonstra como já se pode pertencer ao céu sem deixar de 
estar presente na terra. 

Na síntse das quatro poderosas colunas da Paz, quer parecermos que 
a última : na liberdade, será aquela que dará o próprio clima, que per- 
manecerá o próprio ar para que as outras possam subsistir e respirar, 
será por isso também a mais difícil de ser construída, a mais delicada, 
a mais vulnerável aos ataques, às destruições de um mundo brutalizado e 
que, por isso mesmo, facilmente nega o que é fundamentalmente humano 
enquanto enraizado no racional e no espiritual. A liberdade continua a 
ser o grande problema do mundo moderno, dominado pelo idolo totali- 
tário do estado que insiste em construir na terra, a quakiuer preço, o 
paraízo tecnológico da eficiência. Foi esta resposta brutal do homem do 
naturalismo às travessuras inconseqüentes, irresponsáveis e imaturas do 
liberalismo, da trêfega “liherté” dos jinpetos revolucionários de -1789. 

Hoje, o homem, digno dêste nome, sente que o bem mais precioso a 
defender com urgência e vigilância inQuebrantável é o bem da liberdade, 
clima insubstituível para qualquer outra edificação. O desprêzo pela li- 
berdade provêm do desprezo pela razão humana, provem do desprezo 
pela definição clássica do homem. Bernanos nos diz que a civilização 
francesa — poderia dizer a civilização clássica ou cristã — “edificou-se 
na base de uma determinada definição do homem, comum a todos os 
pensadores, crentes ou incréus, a do homem como ser racional e livre. 
Era esta liberdade do homem, esta solidariedade absoluta entre a razão 
e a liberdade que dava à pessoa humana seu caráter sagrado. Pois bem, 
— diz Bernanos — o mundo no qual iremos entrar — talvez estejamos 
nêle, mas a porta ainda não se fechou atrás de nós — nãoi conhece a es- 
])écie de homem a que me referi.” 

Certamente nos aparecerá logo algum jovem estudante de sociologia 
com seu belo arcabouço de formação histórica haurida nos livros fabri- 
cados em série para uso específico de conscientização dirigida das massas 
e nos dirá que nunca houve homem livre porque sempre houve a opres- 
são das classes privilegiadas. Que é difícil que haja homem livre, to- 
talmente livre, bem 0 sabemos. Desde o pecado original é assim. Por 
isso, o santo é aquêle que mais se aproxima da liberdade, conquista passo 
a passo esta liberdade dos filhos de Deus, renunciando a tudo, ao mundo 
e a si mesmo, para ser dono de si mesmo naquele que o é verdadeira- 
mente, por amor à liberdade de ser de Deus. Bem sabemos que oprimidos 
os houve em todos os tempos, mas que deram seu sangue pela liberdade, 
pagaram o preço supremo' para que seus filhos não o fôssem mais. Bem 
sabemos que mesmo hoje, entre nós, não faltam aQuêles, como os viu e 
nos contai o mesmo Bernanos, para os quais “a fome crónica lhes parece 


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CRÓNICAS 


RADIOFÔNICAS 


coma que uin tributo natural da liberdade” e éles o pagam. Seria melhor 
0 mais justo não ter que pagar tal tributo, como seria melhor não pre- 
cisar dar a vida para conservar ou conquistar aquilo que é devido por 
iustiqa. Êstes que são os escravos segundo os sociólogos comunizantes, 
são precisamente os que mais valorizam a pouca liberdade que possuem 
porque sabem o quanto ela custa e estão dispostos a pagar o preço, sem 
arruaças, sem os gritos histéricos e inconseqüentes de revolução. Nestes 
ainda se realiza a definição de homem, ser racional e livre. Onde ela 
niais dificilmente se realiza é naqueles que optam pela arruaça não pre- 
cisamente porque queiram pagar qualQuer preço pela liberdade que os 
dignifica mas porque querem receber o preço de sua liberdade vendida, 
querem avidamente encontrar quem lhes pague um prato de lentilhas pelo 
lK*m qtie aprenderam a não estimar, com o freqüentar dos anacrônicos 
repetidores de marxismo. , 

É ai que reside a diferença enorme entre um e outro conceito de ho- 
mem, e de sociedade. A crise do homem de hoje é a crise da liberdade, 
enquanto o totalitarismo a esmagou numa metade do mundo e enquanto 
essa crise tenta corroer internamente a outra metade dom as fòrças da 
eficiência material com a maquinaria colossal da propaganda que distila 
dia e noite o veneno da mentira sob a forma de “slogans” que substituem 
o raciocínio que persuade, que substituem, pela repetição mecânica, a 
convicção racional e livre que gera os mártires e os santos. Comenta, 
com razão, Bernanos : “Não nos encontramos em presença de uma crise 
politica ou social, mas de uma crise de civilização” em Que, a rigor, nem 
se pode opor democracias e ditaduras por que em ambas a crise se ma- 
nifesta, ainda que de modo e em grau bem diverso. “Sim, tempo virá, 
se não tomarmos cuidado, continua o romancista francês, em que a 
pretensão de um homem a pensar livremente parecerá não menos absurda 
que a de um mecânio se esforçando para fabricar, com suas mãos, auto- 
móveis, visando fazer concorrência a Ford. E isso pela mesma razão. 
Pois o pensamento livre custa já bastante caro e em certos países nem 
tem prêço, custa o preço da vida”. Todos sabemos, com maior ou menor 
precisão, o quanto custa a liberdade em uma metade do assim chamado 
mundo civilizado, variando também êsse preço conforme o tipo de liber- 
dade a que se pretende ter direito. É João XXIII (|uem nos deixa en- 
trever issq em um trecho de discurso mais antigo. Dizia o Papa em 25 
de Janeiro de 1959, festa da conversão de S. Paulo: “Podeis avaliar a 
nossa dor, que se tornou mais aguda do momento em que, não obstante 
nossa indignidade, fomos colocados sóbre esta altura da qual é permitido, 
ainda que com alguma dificuldade, percorrer mais vastos horizontes tin- 
tos de sangue pelo sacrifício imposto a muitos por causa da liberdade, seja 
ela a liberdade de ])ensamento. de atividade cívica e social e com especial 
ferocidade no caso da liberdade da profissão da própria fé religiosa”. Se 
as nações chegam, com efeito^ a êste ponto em que é preciso dar a vida 
pela liberdade, dar o sangue para viver com dignidade, em muitos casos 
será preciso saber se antes de chegar a tal ponto não houve um culpável 
c criminoso desprêso pela liberdade que à maneira dos grandes bens, como 


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CRÔNICAS 


RADIOFÔNICAS 


u saúde, só é apreciada eni seu valor quando veiu a faltar- É ainda aqui 
Bernanos que nos adverte do perigo que corremos, nós Que ainda goza- 
mos da liberdade, mas não sabemos ao certo até que ponto já não esta- 
remos intoxicados pela guerra química da propaganda dos que diabòli- 
camente trabalham, dia e noite, para quei a humanidade aliene totalmente 
o seu precioso bem que nos foi reconquistado pela verdade do Cristo, 
pela verdade que liberta. Diz o pensador francês explicando o título de 
seu livro “Liberté pour quoi faire ?” É sem dúvida um belo título, eu o 
confesso, tanto mais à vontade porque não fui eu que o inventei, “La 
liberté pour quoi faire?”, trata-se, como todos sabem, de uma frase cé- 
lebre de Lenine e exprime com um brilho e uma lucidez terriveis esta 
espécie de desafeiqão cínica pela liberdade, que já corrompeu tantas cons- 
ciências. A pior ameaça que pode sofrer a liberdade não é que se possa 
ficar sem ela, — pois aquêle que a deixou escapar, poderá sempre recon- 
quistá-la — (acrescentamos: ainda que seja pagando o preço da própria 
vida) — a pior ameaça que pesa sôbre ela é que desaprendamos a amá-la 
ou que a não compreendamos mais”. “Pour quoi faire ?” aí esta para 
Bernanos o grande perigo e nós o sentimos com enorme premência e 
realismo quando vemos que a parte do mundo que ainda goza da liber- 
da!de é, aos poucos, amortecida no amor a êsse bem, é anestesiada de 
modo a não mais sentir, com tôda a veemência devida o absurdo das 
nações que se apresentam desavergonhadamente diante do mundo, ne- 
gando a liberdade de pensamento, de religião, de escolha, de locomoção, 
cercada por uma cortina de ferro ou dividindo uma cidade por um muro 
intransponível de vergonha e abjeção. 

A fòrça de propaganda, de slogans, de cosmonautas aos pares que 
realizam o supremo paradoxo de darem inúmeras voltas em torno da 
terra mas não poderem livre e anonimamente darem uma voltinha turís- 
tica pelas ruas da Europa, pelas ladeiras da Itabira ou pelas fontes de 
Caxambu, à fòrça de lavagem de crânio da propaganda do irracional, o 
homem' de nossos dias corre o imenso risco de não mais reconhecer e de 
não mais amar o bem a que tem direito e do qual terá que dar contas a 
Deus de como o usou, como o apreciou e o guardou, isto é, o bem da 
liberdade. 

Na doutrina de João XXIII aparece frequentemente êste apêlo à 
luta pela liberdade contra aquêles que fazem dêsse bem uma erva daninha 
Que deve ser estirpada para que se instaure, a qualquer preçf), a ordem da 
eficiência tecnológica a serviço da revolução. 

“O amor dá' liberdade possui raízes nitidamente cristãs”; “não é 
possível, separar o nome da liberdade do nome de Deus (pie é seu insu- 
bstituível fundamento. A verdadeira liberdade é dom do Senhor e só 
floresce e prospera onde sopra o seu Espírito”. “Todo desvio, na história 
dos diversos povos, sôbre êsse ponto da liberdade, resulta de fato, de 
contradição, às vêzes mais ou menos velada, outras vêzes, audaciosa- 
mente violenta, com os princípios do Evangelho”. Ou então como diz 
com clareza bem nítida na tão comentada “Pacem in terris” : “há regi- 
mes políticos que não asseguram às diversas pessoas individuais, uma 


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CRÔNICAS 


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suficiente esfera de liberdade, dentro da qual seja permitido ao seu 
espírito respirar com ritmo humano; muito ao contrarie^ nesses regimes 
é posta em discussão ou abertamente negada a legitimidade da própria 
existência dessa esfera.” Num plano mais amplo de relações internacio- 
nais, vigora o mesmô princípio da liberdade ; “as relações mútuas entre 
as comunidades políticas se devem reger pelo critério da liberdade. Isso 
(juer dizer que nenhuma nação tem o direito de exercer qualquer opressão 
injusta sôbre outras, nem de interferir indevidamente nos seus negócios. 
Tôdas, pelo contrário, devem contribuir para desenvolver nas outras r> 
senso de responsabilidade, o espírito de iniciativa e o empenho em tor- 
nar-se protagonistas do próprio desenvolvimento em todos os campos. 
Eis, segundo João XXTII, a liberdade a serviço da verdade, da justiça, 
da caridade, na grande e imensa construção da Paz entre os homens. 

(Transmissão de 6.7.1963) 

INTERLÚDIO SÔBRE A LIBERDADE: PASTE RN AK 


,üs principios fundamentais para a construção do grande edifício da 
Paz mundial, segundo o ensinamento do Papa João XXIII incluem como 
elemento indispensável o clima de liberdade que deve reinar na sociedade 
jiara que seus membros possam respirar num ritmo humano. Ê o am- 
biente absolutamente necessário para que possa vicejar a justiça e ainda 
mais a verdade. Há dias, dizia o Presidente dos EE.UU. em um dis- 
curso que nada tem de violento e (lue pode ser considerado simpático para 
com o adversário, dizia contudo: “é desencorajante pensar que os diri- 
gentes do referido País (a URSS) possam verdadeiramente acreditar 
naquilo que seus propagandistas escrevem continuamente. Fica-se depri- 
mido no constatar a amplidão da fossa que nos separa . . . Como ame- 
; icanos, constatamos que o comunismo é a negação mesma da liberdade 
])essoal e da dignidade, o que não impede Que admiremos o povo russo 
]jor suas numerosas realizações, etc.” Já alguém me diria que essas pa- 
lavras são apenas expressão da agressividade imperialista, inimiga da 
l>az. Não precisaria entretanto ser um americano, nem o Presidente dos 
americanos para constatar tal realidade. Poderia ser um homem qual- 
quer que ainda mereça tal nome, poderia mesmo ser um russo, como ser 
pensante ; ou poderia mesmo ser um russo que admirou a revolução mas 
que conservou sua liberdade interior como um Boris Pasternak que se 
tornou anos atrás, conhecido de todo o mundo, como um símbolo da 
mesma liberdade, florescendo em meio ao pântano. O caso e as memó- 
rias, e as idéias de Pasternak continuam a ser comentados hoje e cha- 
mamos a atenção para o magnífico ensaio e depoimento a respeito, da 
autoria do monge e escritor Thomas Merton que se correspondia com 
Pasternak e o acompanhou, de longe, em suas vicissitudes. Diz-nos Mei— 
ton em seu ensaio : O Caso Pasternak publicado recentemente entre nós 
no livro “Questões abertas” — editora AGIR. 


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Pastcnuik rcprcscnia, cm primeiro plano, os grandes valores espi- 
jPtuais que correm perigo em nosso unindo materializado. Representa a 
Uberdade c a nobreza do indivíduo, do homem à imagem d,e Deus. do 
homem em quem faz Deus sua morada. Para Pastcrnack, a pessoa está e 
deve permanecer, acima da coletividade. Pasternak defende a atitude 
leal, corajosa c independente da própria consciência, a recusa a aceitar 
slogans e raciocínios impostos à força. Pasternak luta pela verdadeira 
Uberdade do homem, por .<;cu verdadeiro ideal construtivo, contra o falso 
e "'azio humanismo mar.vista — para o qual o homem, em realidade, ain- 
da não existe. Acima e além do linguajar técnico e do vazio cientificismo 
do homem moderno, Pasternak coloca o simbólismo criador, o poder da 
imaginação c da intuição, a glória da liturgia e o fogo da contiCmplaeão 
PJe 0 faz porém, com palavras novas e de um modo nôvo. Elezv a z'oz 
ein favor de tudo aquilo que há de mais são e permanentemente zntal na 
tradição religiosa c cultural c é a z'Oz de um homem de nossa época. 

fi precisamente issa que o torna perigoso aos olhos dos marxistas, 
■razão porque os mais inteligentes e severos críticos pró-soviéticos têm 
feito todo o posskvl para praiar que DR. ZHIVAGO nada mais é do 
que uma última e desesperada exploração de romantismo indnddualista 
— uma z’Oz do pas.zado morto.’' {Questões Abertas p. 4Ós ) . 

Se.síue-se uma ordenada e informada exposição de Merton sòhre a 
vida e a obra de Pasternak explicando sua obra poética e em prosíi e 
como decorria sua vida de pensador e escritor através dos tenebrosos 
anos do regime totalitário, escapando inexplicavelmente das perseguições 
e da morte até que seu livro Dr. Zhivago foi proibido de ser impresso na 
Rússia; segue-se então a publicação no estrangeiro, o prêmio Nobel, a 
recusa do mesmo por Pasternak que já então era expulso de tòdas as asso- 
ciações de escritores russos e apresentado na Rússia como o “porco que 
suja onde dorme e onde come, o autor de uma obra imunda, que odeia 
o ])ovo russo”. Pouco depois morria Pasternack. 

Em dado momento do estudo de Merton. lê“se : 

^'Pasternak foi moralniente obrigado a recusar o Prêmio Nobel para 
poder permanecer na Rússia. A objeção principal {do pensamento oficial 
ru.zsa contra Pasternak ) não está baxeada nos trechos em que o marxis- 
mo é explicitamente condenado, pois êsses são relativamente pouco nu- 
merosos c poderiam ter sido eliminados. Todo o mal do livro, do ponto- 
-de-vista soviético, é algo ‘‘qut\ nem os editores nem o autor podem mu- 
dar por meio de cortes ou de revisão.”. .. é o espírito do romance, o tom 
com que é escrito, a mentalidade do autor cm relação à vida em geral. 
...Uma coletividade que reduz seus membros ao nível de objetos alie- 
nados está condenando, tanto os membros como a si mesma, a uma exis- 
tência inútil c estéril, a que nenhuma quantidade de discursos c desfiles 
poderão dar sentido. Para Pasternak, a grande tragédia da R.cvoluçãv 
foi o fato de os melhores homens, da Rússia se submeterem ao tfesz'ario 
da massa cedendo à autoridade do gigante, o Estado opressor. 


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CRÓNICAS 


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prtncipak^ desgraça, a raiz de todo o mal que se seguiu foi a 
falta de confiança de cada um no valor da própria opinião. Ima- 
ginava-se estar fora de moda seguir cada um o seu próprio senso- 
dg moralidade, que deviam todos cantar em côro e se nortear 
pela opinião alheia; opinião que era empurrada, garganta abaixo 
em todos... O mal social se tornou uma edipemia. Era conta- 
gioso, tudo afetava, coisa alguma Ihg escapou. Nosso próprio 
lar foi também infetado... Em lugar de sermos naturais e es- 
pontâneos como sempre havíamos sido, começamos a ser estu- 
pidamente pomposos uns com os outros. . . Descobrimost na prá- 
tica, que acjuilo que êles designam como idéias nada mais é senão 
um amontoado de palavras — aplausos em louvor da Revolução 
e do regime. . ^Dr. Zhivago, pp. 404 e 407) . 

Como Dostoievsky, Pasternak afirma que o futuro do homem depen- 
da de sua capacidade de se livrar . . . dos que lhe prometem a felicidade à 
custa de sua liberdade (Questões Abertas, p. 675) 

Com esta frase de Merton, fica-nos a grande lição da luta pela liberdade 
que em outros termos é exigida de nós pela doutrina serena e confiante 
de João XXIII. 

Precisamos da liberdade para que a verdade seja descoberta, procla- 
mada e vivida mas é a Verdade que afinal nos libertará. 

(Transmissão de 13 • 7- 1963) 

A MENTIRA APRESENTA SEU PAI 

Ê no mesmo texto evangélico em que a palavra do Cristo nos adverte : 
•‘Não julgueis para que não sejais julgados. Pois na medida com que 
julgardes, sereis também julgados.” É neste mesmo texto do capítulo 7.® 
de S. Mateus em que somos advertidos de mantermos para com nosso 
próximo uma atitude de isenção, uma atitude quase de misterioso silêncio 
interior diante do mal que possamos vir a descobrir nêle, é nesse mesmo 
capítulo que nos é ensinado como reconhecer o mal, identificá-lo, para 
não cairmos como sua présa passiva e indefesa. “Acautelai-vos contra 
os falsos profetas, que vêm a vós com roupa de ovelhas e por dentro são 
lobos ferozes. Pelos seus frutos — assim como se conhece que uma árvore 
é boa ou má — os reconhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos es- 
pinheiros ou figos dos abrolhos? Com efeito, tôda árvore boa dá bons 
^rutos e a árvore má dá maus frutos. Não pode uma árvore l)oa dar 
frutos mau.s. nem uma árvore niá dar l)ons frutos. 'Póda árvore que 
não dá bom fruto é cortada e lançada ao fogo. Pelos seus frutos, portanto, 
vós os conhecereis. Nem todo o que me diz; “Senhor, Senhor’ entrará 
no reino do céu. mas sómente aquêle que faz a vontade de meu Pai que 
está no céu.” O que ressalta imediatamente dessas palavras de sabedoria 
é o vigor com que se afirma êsse principio de identidade absoluta entre 


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o bom que fará necessàriamente o bem e o mau que produzirá sem ex- 
ceção o mal, princípio Que, se admissível de modo geral entre as coisas 
materiais e nas ações físicas, é evidentemente inverossímel nas ações 
morais. Serei eu, perguntará alguém, bom ou mau? Se sou bom, serei 
como árvore boa e farei sempre o bem; se sou mau, serei como o espi- 
nheiro e produzirei sempre espinhos? Seria essa uma conclusão total - 
mente falsa que, no entanto, poderia parecer decorrer das palavras do 
Cristo quando fala das árvores e de seus frutos bons e maus. O Evangelho 
quer contudo ir bem mais longe. Quer referir-se a dois espíritos, a dois 
princípios, a dois principados. O espírito do bem, o espírito que é o 
bem, que é a própria Bondade e do qual só se pode esperar o Bem 
Ê Deus que, só Ble é bom, do qual deriva todo o Bem e tôda a Bondade, 
Se Ble assiste a existência do mal é porque não pode impedir o nada ; 
já que quis que o ser exista não pode impedir, por assim dizer, que se 
faça do bem um mal, Ble que é capaz de, mesmo do mal, tirar um bem 
e mesmo muitos bens. Poderá essa árvore dar maus frutos? Jamais. 
Ma$ há um outro espírito, um outro princípio de ação ou melhor de ne- 
gação, de aniqülamento. que é mesmo um principado, um príncipe de- 
caído, um princiije das trevas. Foi criado para o Bem, mas optou defi- 
nitivamente ])elo “seu” bem, negando, diminuindo, aniQüilando o Bem 
mesmo absoluto. Bste Bem eterno não podendo ser vulnerado em si 

mesmo, é atingido contudo no que poderia ter planejado para o próprio 

espírito criado que preferiu o nada de sua criatura ao tudo de seu criador, 

que se tornou um príncipe das trevas, príncipe do nada, pois só o nada 

êlel poderá fazer por si mesmo. Esta árvore não poderá dar bons frutos, 
ela é má e ficará sempre má, sua opção foi única e definitiva, seus fru- 
tos serão sempre maus, espinhos, angústias, trevas, destruição, ódio, men- 
tira e morte. A perdição chama por perdição, o abismo atraí o abismo, 
o ódio gera o ódio e a morte semeia a,. morte. 

Entre essas duas árvores, do bem e do mal, da vida e da morte, pas- 
sarão aqueles que se deixarão atrair pelos seus frutos; frutos da vida, 
frutos da morte. São aqueles que escolhem lentamente seu destino, 
aqueles espiritos encarnados que, com a sutileza do espírito levam a 
lentidão da carne, que repetem seus atos. que ora se inclinam para o 
Ix-m, ora pagam seu tributo às trevas, aqueles que Deus atrai : que 
Deus chama, que Deus move pela graça, e que felizes são cpiando ter- 
minam entregando ao Bem todo o bem ipie lhes pertence. Não é dêsse 
drama da escolha, da opção, da perseverança, da conversão ou da apos- 
tasia, não é dêsse drama vivido em intensidade de vida e de morte pelos 
sêres humanos, um por um, quem Quer (pie êle seja, seja qual fôr sua 
cultura, sua pátria, sua era: não é desse drama dos dois caminhos, 
dos dois espíritos, das duas árvores que se colocam diante de todos os 
homens, que o Evangelho nos quer falar hoje. 

Ble nos fala de algo que tem ares de uma terceira possibilidade nessa 
encruzilhada de caminhos, mas que não passa afinal de uma mistificação, 
de um engano : é o mal travestido de bem, é o veneno com sabor de 
maçã, é o espinho coberto de tênue polpa, o Evangelho é mais rude e 


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concreto: é o lobo com vestes de cordeiro. Aqui está realmente o ponto 
sutil que interessa a todos os homens e por isso a palavra evangélica 
começa advertindo: “acautelai-vos”. Sim, é porque o espinho nunca se 
apresenta como espinho, o mal nunca diz: “sou o mal, vem comigo”, 
êle dirá no máximo, dizem que sou mal mas vejam sou até bem bom, 
o mal, de que falam alguns, não existe. O diabo nunca dirá que é o 
diabo, .seu maior ardil, como já foi dito, consistirá mesmo em persuadir 
e fazer crer que o diabo não existe, assim o lobo não se apresentará 
como lobo mas dirá que é um manso cordeiro. Com tudo is.so o príncipe 
das trevas mostra apenas que é o Pai da mentira e que a mentira leva 
à perdição em nome da vida. O Evangelho dos bons frutos e dos 
esj)inheiros, da árvore boa e da árvore má, (juer, de fato, nos falar da 
mentira, do embuste, da impostura que campeia no mundo em todos os 
Quadrantes, em todos os gabaritos. A mentira enfrentou mesmo a Jesús 
e ficamos conhecendo sua abominável genealogia ou ao menos sua filia- 
ção, através das palavras do Cristo naquela sua discussão com os judeus 
conforme nos é narrado por S. João. Num dado momento diz Jesús 
aos judeus que alegam ter um só pai: Deus. Diz-lhes: “Se Deus fósse 
vosso pai. certamente amarieis a mim, pois eu saí e vim de Deus. Não 
vim de mim mesmo mas êle me enviou- Por que não compreendeis 
minha linguagem? Certamente porque não podeis ouvir minha palavra. 
Tendes o demônio por pai e quereis cumprir os desejos de vosso pai. 
Ele foi homicida desde o princípio. Não permaneceu na verdade, porque 
néle não há verdade. Quando profere a mentira, fala do que lhe é pró- 
prio, porque é mentiroso e pai da mentira. Mas eu, porque vos digo a 
verdade não me acreditais.” (Jo. 8, 42-45). 

Aí está a explicação fundamental dêsse evangelho do lobo com 
veste de cordeiro. O lobo dirá sempre que é filho de Deus, que quer 
o bem, (pie quer salvar ; saberá denunciar, à sua maneira, os males do 
mundo, os pecados da humanidade, é assim que êle engana os incautos. 
Mente. Mente porque é inspirado pelo pai da mentira que mentiu desde 
0 início. No momento, porém, da passagem à ação, revela-se a mentira 
porque sua ação é o mal, é a destruição, é o ódio, é a revolução, a ár- 
vore dá o seu fruto, o único fruto que poderia dar. Por isso o nosso 
evangelho manda olhar para os frutos, manda olhar para a ação e ter- 
mina com as palavras decisivas que desmascaram o fariseu, o impostor, 
os falsos salvadores, os mentirosos: “Não é o que diz; Senhor, Senhor, 
que entrará no reino do céu, mas somente aquêle que faz a vontade 
de meu Pai que está no céu”. Ê no agir que a verdade se revela. Êsse 
agir é um obedecer à palavra do Pai : A palavra do Pai é a verdade, é 
mandamento da mútua santificação, da mútua salvação, do amai-vos, do 
perdoai-vos. do dai a vida pelo vosso próximo, do amar a qualquer 
preço, do amar os próprios inimigos. Quando as palavras. Senhor, 
Senhor são proferidas com soluços de sentimento, com reqüintes de sen- 
sibilidade, vêm acompanhadas porém da pregação do ódio, do sangue 
fraterno derramado, do menosprêzo à liberdade, então já sabemos que o 
lobo é lobo mesmo e que o Senhor que êle invoca é o Senhor seu pro- 


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jienitor, o da mentira, apenas êsse. O assunto dêsse Evangelho nos 
faz, portanto, naturalmente recordar que a Encíclica “Pacem in terris” 
(juer discorrer sóbre a Paz de todos os povos fundada nas (juatro co- 
lunas mestras da verdade, justiça, caridade e liberdade. A verdade vem 
citada como a primeira das colunas. Cristo é a verdade e o príncipe 
dêste mundo é o Pai da Mentira. 

(Transmissão de 20-7-1963) 

PAULO VI, NOVO PEDRO 

grande e popular festa dos Santos Apóstolos, S. Pedro e S. 
Paulo, a festa do “Tu es Petrus’'. da jiedra angular do cristianismo, 
enquanto uma instituição do céu (jue está bem plantada na terra, reves- 
te-se de um caráter especial neste ano <lie 1903 por estarmos vivendo 
nestes dias as ])rimicias do govênio de um nôvo Pa])a, de um nóvo Pedro, 
Que é também um nôvo Paulo. A Liturgia, ao lançar no dia santo de 
hoje, diante do mundo, as palavras inspiradas de Pedro proclamando 
Cristo como Filho de Deus e a resposta do Cristo dizendo ao A])óstolo ; 
“Tu es Petrus”, isto é, tu és pedra e sòbre essa pedra edificarei minha 
Igreja, não jmde deixar de ser ouvida como uma proclamação nova qiie 
“oa em todo o mundo. Ê apenas isso; há um nôvo Pedro e as palavras do 
Cristo estão mais vivas, se possível, do que quando êle as pronunciou 
e que a edificação do Corpo do Cristo na massa dos fiéis que nêle são 
batizados é uma edificação que parte cada dia, que renasce cada dia, com 
o vigor d'o ])rimeiro momento, direi mesmo com um vigor (jue não dei.xa 
de crescer século por século, ainda que nem sempre a nitidez dêsse 
crescimento seja perfeitamente visível aos olhos humanos. Estes são 
bem mais sensiveis às fraquezas, aos recuos, às perdas materiais (pie são 
mais que sinais de cansaço e de derrota, os sinais de uma caminhada 
que prossegue em profundidade e também em e.xtensão, mas atingindo 
campos que i)or sua interioridade não nos é dado sempre perceber, con- 
frontar, avaliar. 

Há uma alegria, um entusiasmo, um revigoramento ao sentirmos 
(pie a rocha de Pedro se renova, que dela brota o mel de renovada do- 
çura. (pie da ])edra flui ]>ara dar aos homens um renovado sahor de vi- 
ver. “Tu és Petrus” — E surge um nôvo Papa, sucessor de Pedro, 
(lue se levanta diante de todo o mundo, Que é capaz de falar a todo o 
universo como quem fala aos que são seus, que é capaz de ser ouvido 
jielo universo inteiro, ouvido pelos homens de todo o mundo como al- 
guém que lhes pertence, que não é o chefe de um estado, que não é o 
poderoso ditador de um bloco de satélites em tórno do Leviatan, que 
tem um sô titulo para falar a todos os homens e ser ouvido iior todos 
coniu alguém que lhes pertence, como o Pai fala aos filhos, como o 
irmão fala aos irmãos, que é o título do amor, do amor do Cristo do 
qual o Papa é o arauto e é o portador, o doador ao nuuvlo. Por isto 
o mesmo Cristo (jue diz a Pedro “'l'u és Petrus”, pergunta três vêzes ao 
apóstolo — “Pedro, tu me amas?” Senhor, sabes que te amo — - apas- 


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centa então minhas ovelhas. O amor é o segredo da eterna juventude 
da instituição de Pedro como representante de Cristo na terra através 
dos tempos, porque é através de Pedro e de seus sucessores que Deus 
quis comunicar o amor aos homens, para que êles o amem e para que 
éles se amem. 

Paulo VI nos fala dêsse amor, que é de Deus e que deve penetrar 
as coisas terrenas, as relações dos homens entre si na vida social, nas 
relações entre os povos. 

Kis a palavra do nôvo Petrus que se chama Paulo VI: 

OS PAÍSES SUBDESENVOLVIDOS 

“O imperativo do amor do próximo, pedra viva do amor de Deus, 
exige de todos os homens uma solução mais equitativa dos problemas 
sociais, hem como medidas em favor dos países subdesenvolvidos, nos 
quais reina um nível de vida que, com frequência, não é digna da i)essoa 
humana. Aquele imperativo impõe um estudo pleno de boa vontade, rea- 
lizado em escala mundial, para melhorar estas condições de vida. 

.■\ nova época, aberta á humanidade pelas conquistas espaciais, será 
l>endita pelo senhor se os homens souberem reconhecer que são irmãos 
entre si, antes de serem competidores mútuos, e se souberem edificar 
a ordem no mundo, no temor de Deus e no respeito de sua lei : na luz 
cia caridade e da colaboração de todos”. 

O FRUTO DESSA CARIDADE Ê A PAZ 

“Nossa obra. com a ajuda de Deus, terá por objetivo lograr, vigo- 
rosamente. a manutenção do grande bem da paz entre os povos. Paz 
rpie não é apenas a ausência de rivalidades guerreiras ou de facções 
armadas, mas um reflexo da ordem querida por Deus, Criador e Re- 
dentor, vontade construtiva e temas de compreensão e de fraternidade, 
manifestação de tôda prova de boa vontade, desejo incessante de con- 
córdia inspirada pelo bem verdadeiro da humanidade, com uma caridade 
não dissimulada {2 Co. 6,6). 

Neste momento, em que tôda a humanidade volta a vista para esta 
cátedra de verdade e para aquêle que foi chamado para representar o 
Divino Salvador na terra, não podemos mais do que renovar o apêlo 
em favor do entendimento leal, franco cheio de boa vontade, que 
possa unir os homens no respeito reciproco e sincero, o convite a fazer 
todos os esforços para salvar a humanidade, para favorecer o desen- 
volvimento pacífico dos direitos que Deus lhe deu, e facilitar sua vida 
espiritual e religiosa a fim de levá-la à adoração mais viva e sentida 
do Criador’’. 

Não faltam sinais alentadores Que nos vêm dos homens de boa von- 
tade. Por isso agradecemos muito ao Senhor, enquanto que oferecemos 
a todos nossa serena porém firme colaboração para a manutenção do 
.grande dom da paz no mundo”. 


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CRÔNICAS 


RADIOFÔNICAS 


É apenas na qualidade de vigário de Cristo na terra que êste ho- 
mem pode falar a todos os homens, como conviria que um homem pu- 
desse falar aos outros homens. E êle fala a todos, êle fala como irmão 
e como Pai, mesmo àqueles que talvez o considerem como seu inimigo. 
Para Deus, como para um Pai não há filhos que possam ser inimigos, 
também não os há para aquêle que é a rocha sôbre a qual Cristo quis 
edificar. 

Fala com clareza, com segurança, com serenidade, com esperança, 
com confiança plena, aos que precisam da Paz, da Verdade, da Justiça 
e julgam, contudo, não ser necessária a Liberdade : 

“Queremos, em particular, que os irmãos e os filhos das regiões 
nas quais a Igreja não po/ck exercer seus direitos, nos sintam muito 
perto dêles. Foram chamados a participar de mais perto na Cruz de 
Cristo, à qual — estamos seguros sucederá a alvorada radiante da res- 
surreição. Poderão assim recobrar lentamente o pleno exercício do seu 
ministério pastoral, o qual, pela sua própria instituição, é exercido não 
apenas em benefício das almas, como também das nações em que vivem. 

Paulo VI com a fé de quem recebeu a palavra do Cristo, de Quem 
a tem viva e presente: Tu es Petrus, sôbre essa pedra edificarei minlia 
Igreja dar-te-ei as chaves; as portas do inferno não prevalecerão sól>re 
da . 

Transmissão de 29-6-1963) 

A COROAÇÃO NO 4.° DOMINGO DEPOIS 
PENTECOSTES 

.A cerimônia da Coroação do Sumo Pontífice, Paulo \T, que sig- 
nifica sua .solene e pública tomada de posse do supremo poder, que já 
j)Ossui ; por fôrça da eleição e da aceitação da mesma, a coroação de 
Paulo VI com sua benção L^rbi et Orbi — para a Cidade De Roma e 
para o orbe — terá lugar no domingo de amanhã na Praça e na Basílica 
de S. Pedro. Foi escolhido o domingo por ser o dia 30 em que, depois 
da festa dos Apóstolos Pedro e Paulo que é absorvida pela figura de 
Pedro, se comemora especialmente S. Paulo, Padroeiro do Nôvo Papa. 
Na liturgia universal contudo, celebra-se amanhã não a comemoração 
de S. Paulo mas o 4.” Domingo depois de Pentecostes que nos fornece 
textos magníficos sôbre a figura do Apóstolo Pedro no Evangelho e 
sôbre a missão do apostolado na carta <10 S. Paulo aos cristãos de 
Roma, justamente aos de Rcíjiia. 

“Os sofrimentos desta vida nada são em comparação com a glória 
na qual resplandeceremos um dia. Tôda a criação está nesta especta- 
tiva de esperança . Ela espera que se manifeste a glória para os filhos 
de Deus. Pois, se a criação está a serviço do mal é contra sua própria 
tendência, foi porque Deus a submeteu ao homem, e êste decaiu. Mas 
ela conservou a esperança, será libertada da corrupção para partilhar 
da esplêndida liberdade dos filhos de Deus. Até que venha êste dia, tôda 
ciatura geme. sofre mas são sofrimentos que desabrocharão numa nova 


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CRÔNICAS 


RADIOFÔNICAS 


vida. O Apóstolo c precisaniente aquele que anuncia a todos os ho- 
mens esta nova vida <|ue não tem comparação com a atual e na (pial está 
ancorada nossa esperança . 

O apóstolo por sua fé, ])or sua pregação, por sua ação confirma os 
homens nessa esperança da futura glória, não deixa que êles desesperem, 
não deixa que esta chama de desejo da vida futura e verdadeira vida, hru- 
xoleie c se apague em seus corações humanos. Sobretudo para isso deve- 
cstar voltada a pregação do apóstolo em nossos dias, despertar a atenção, a 
vontade dos homens para que não se deixem conformar e saciar com 
as coisas dêste século, como os que não têm esperança. Para uma hu- 
manidade cujo ideal é ficar cada vez menos sujeita às penas e dificul- 
dades desta vida. há o perigo de que passe a não mais desejar a glória 
da vida futura. Seria êste o maior embuste a Que poderia estar sujeito 
o homem, engano tão grande ou maior c|ue o primeiro, o da serpente no 
paraiso. Os homens realmente fingem encontrar a felicidade nos bens 
terrenos, é a atitude de compensação que êles assumem; muitos enco- 
brem a decepção de ter pago tão grande ]>reço por tão pouco, dando-se 
por satisfeitos com sua felicidade terrena. O Cristo e seu .Ajróstolo 
despertam o homem, advertem-no contra esta ilusão. Fazem-no es])erar 
])ela Vida e como realmente a imensa maioria dos homens está sequiosa 
de verdadeira vi(Ta e de verdade e de amor, a Voz do Cristo é ouvida, 
é bebida, às vêzes me.snio às escondidas, disfarçadamente, por uma hu- 
manidade que a ouve através de seu representante. Êste. é Pedro, seus 
sucessores seus colaboradores. Êste é Pedro — “Tu es Petrus”, ])ois foi na 
barca <le Pedro que Jesus um dia embarcou, nas margens do lago de Oene- 
saré, como nos conta o Evangelho de amanhã, para ensinar ao mesmo Pedro 
como fazer as grandes j)escarias do reino dos céus. Jesús está cercado 
jrelo povo, nas margens do la.go, quando vê duas barcas encostadas, en- 
quanto os i)escadores limpavam as redes. Sobe em uma delas que é a 
a de Simão Peflro a quem pede que se afaste para a pesca. “Mestre, 
trabalhamos a noite inteira sem nada conseguir mas já (|ue o mandas, 
jogarei as redes”. Foi tal a quantidade de peixes que logo começou a 
encher-lhe as redes que estas começavam a romper-se. Chama com- 
panheiros de outra barca para ajudá-lo e as duas barcas ficaram cheias 
de peixes. \’endo isto, Pedro caiu aos pés de Jesus dizendo: “Afas- 
ta-te de mim. Senhor, pois, sou um pecador”. Esta pesca, com efeito, 
que acabavam de fazer enchia-o de confusão, a êle e a todos (|ue com êle 
,se encontravam. Mas Jesús disse a Simão Pedro: Não temas, de agora 
em diante será aos homens que irás pescar, .\rrastaram suas barcas 
jiara terra e. deixando tudo, êles o seguiram”. , 

A grande pesca dos homens para a qual Cristo chamou a Pedro e 
seus companheiros vive amanhã um de seus grandes dias. Temos diante 
de nós uma espécie de jresca maravilhosa realizada pelo Cristo através 
de João XXIII. O lago tantas vêzes hostil e ameaçador em suas 
tempestades, o lago no qual tantas vêzes as redes foram lançadas inutil- 
mente, no qual tanto trabalho pareceu vã<i e ineficaz, é o mundo que nos 
cerca. .\(iuilo (|Ue hoje já .se começa a chamar o milagre de João XXIII é o 


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CRÔNICAS 


RADIOFÔNICAS 


<le atrair tantos Iioineiis, tantos povos, at) simples aceno da bondade, 
da compreensão, do que é natural à condição humana em sua dignidade 
intrinseca. Êste o milagre de peixes. Parte-se hoje para o milagre dos 
homens, para a j>esca dos homens, não para que os homens sejam pes- 
cados, mas para que os homens arrebatem para si o Reino dos Céus. 
Ê para êste imenso empreendimento sobrenatural, que não poderá deixar 
de ter as mais auspiciosas ressonâncias na cidade terrena, na terra dos 
homens, que Paulo VI, amanhã, solenemente coroado como vigário de 
Cristo e como sucessor de Pedro, como o nôvo Pedro da pesca dos pei- 
xes e dos homens, nos convida, nos e.xorta, nos instrui e nos conduz, “in 
nomine Domini” — em nome do Senhor. Deixemos nas margens as 
barcas de nossas superadas considerações e preocupações e sigamo-lo 
].ara a grande pesca do Reino dos Céus. 

Transmissão de 29-6-1963) 

A MISSÃO DA IGREJA NA PALAVRA DE PAULO VI 

Não é tarde demais para relembrar as magníficas i)alavra.s de 
Paulo dirigidas em grandiosa audiência concedida ao Conselho 

Kpiscopal Latino-Americano e à Pontifícia Comissão de auxílio es])i- 
ritua! à .América Latina a 10 de julho i)assado. Começou Paulo VI 
lembrando a solicitude do Pastor que partiu. João XXIII, amor e soli- 
citude, pela América, a ponto de, próximo do fim, depois de ter rece- 
bido o Santo Asiático que o encaminharia à pátria celeste, repetir muitas 
vézes em oração: “Ô, o grande trabalho pela América Latina!’ Em 
dado momento de seu discurso, diz o Papa Montini : “Ê supérfluo re- 
cordar : êste é o problema mais angustiante. Pensar nas principais 
metrópoles sul americanas, em tôrno ás quais se aglomeram milhões de 
sêres humanos, cpie acorrem do interior à procura de melhor fortuna, e 
não poder destinar á sua assistência espiritual senão um número por 
demais restrito de sacerdv)tes. Vêm-nos à lembrança as mais vastas 
cidades do Brasil, Rio de Janeiro e São Paulo, que visitamos pessoal- 
mente há três anos atrás — é coisa que enche o coração tle amargor, de 
ânsias e de vivíssimas preocupações e que relembra o doce lamento do 
Senhor: “Messis quidem multa, operarii autem pauci” <Luc. 10,2). 
“.A colheita é grande, os operários poucos”. 

.A missão da Igreja, continuou o Papa, é essencialmente religiosa, 
é comunicação dle graça e consiste no prolon,gar a vida de Cristo no 
mundo, no fazer a humanidade participante dos mistérios do Cristo, 
na Encarnação e Redenção. 1 udo isso acontece por obra do ministério 
sacerdotal . De onde a necessidade de intensificar a ação pastoral prò- 
j)riamente cíita, de escolher os meios mais apropriados para alargar o 
o raio de influência dessa ação. de forma a que atinja tôdas as cama- 
das da sociedade. 

Quanto mais profunda se tornar esta ação. tanto mais intensos se- 
rão os benéficos reflexos que ela não deixará de fazer sentir também 
em outros setores da atividade humana. 


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CRÓNICAS 


RADIOFÔNICAS 


Se, com o efeito, a missão da Igreja não é diretamente nem politica 
nem social, nem econômica, nada, entretanto, existirá de estranho para 
o Sacerdote que compreendeu bem o valor e a extensão do seu ministério 
que é o de em tudo infundir o Espírito de Cristo. 

“O misereor super “turbam” (Marc- 8,2) “tenho pena da multidão” 
do Divino Salvador tornar-se-á parte do programa de trabalho do Sa- 
cerdote, o qual não ficará indiferente, insensível ou inoperante diante 
dos irmãos que sofrem mas, como bom Samaritano, saberá debruçar-se 
sôbre êles e compreender seus problemas. E assim também a ação social, 
bem compreendida, encontrará o lugar que lhe compete entre os deveres 
do Sacerdote : será como uma extensão do ministério sacerdotal prò- 
priamente dito. 

Estamos muito contentes de saber que Nossos Veneráveis Irmãos 
e diletos filhos da América Latina têm esta sensibilidade pastoral que 
lhes faz agir também sôbre os corpos para o bem das almas, sempre 
c-m vista do fim supremo do homem”. 

Para terminar, acrescenta Paulo VI em sua oração de 10 de Julho 
passado: “Sim, bem podemos prever a complexidade dessa empresa 

apostólica ; bem sabemos o quanto sejam insuficientes Nossas fôrças para 
conduzi-las a bom têrmol mas parece-nos ouvir junto ao ouvido, o res- 
soar das palavras prodigiosas de Jesus, hóspede da barca de Simão Pedro, 
no momento da pesca milagrosa: “Duc in altum et laxate retia ve.stra in 
capturam” “Caminhai para o alto e jogai vossas rêdes para a pesca” 
(Luc. 5,4). A exemplo de nossos veneráveis Predecessores, confiados em 
vossa fiel e multiforme colaboração, e seguros sobretudo da assistência 
do Senhor, ousamos aplicar a Nós mesmos e a esta presente condição da 
Igreja Católica no grande continente latino-americano as palavras divi- 
nas, segurando com mão temerosa mas firme o timão da celebrada barca^ 
empurramo-la para o largo, para o oceano da história de hoje e de an.a- 
nhã, para a nova vitória evangélica.” 

(Transmissão de 20.7.1963) 

OS MILAGRES E O MILAGRE DA RESSURREIÇÃO 

(XI." DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES) 

Cada nôvo domingo do ano significa de fato uma renovação de Pá.s- 
coa para o Cristão; é o dia da nova vida, é o dia da Ressurreição que 
se comemora, é o dia do Senhor, o dia senhorial, o “dominicalis dies” ou 
“dominica dies.” Ê um dia Sagrado o Domingo porque relembra o due 
o Senhor Jesus realizou nesse dia: ressuscitou, venceu a morte, redimiu 
todos os homens dessa grande escravidão da morte e, mais que isso, abriu 
para êles as portas de uma nova vida, de uma vida diferente, de uma vida 
que está divinamente acima do que pode aspirar o homem com suas po- 
tencialidades naturais. Cada nôvo Domingo atualiza essas grandes rea- 
lidades na vida de cada ser humano que crê, que acredita que alguém o 
criou e que alguém o espera em uma vida sem fim, sem ocaso. Atuali- 


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CRÓNICAS 


RADIOFÓNICAS 


zando sacramentalmente estas realidades, cada nôvo domingo nos apre- 
senta, para a leitura litúrgica, trechos da sabedoria divina, escritos pela 
mão de homens inspirados, reunidos no que se chama a Sagrada Escri- 
tura ou a Bíblia Sagrada. 

No domingo de amanhã, ii° depois de Pentecostes, lemos e somos 
convidados a meditar o trecho da carta que São Paulo, apóstolo, escre- 
veu aos cristãos da cidade de Corinto, falando-lhes exatamente da Res- 
surreição que é um tema naturalmente dominical. 

Escreve S. Paulo no cap. 15: “Chamo a vossa atenção, irmãos, para 
0 Evangelho, para a boa nova que vos trouxe, o Evangelho que acolhes- 
tes e ao qual permaneceis fiéis. Por êle sereis salvos, se o conservardes tal 
como vo-lo preguei, de outra forma, que vos teria servido de ter acreditado 
nêle ? Transmiti-vos antes de tudo — como ensinamento primordial — 
aquilo que eu mesmo recebi e aprendi : Cristo morreu por nossos pecados, 
conforme as Escrituras ; foi sepultado e ressurgiu ao terceiro dia, sempre 
conforme as mesmas Escrituras, apareceu a Pedro e depois aos dOze. 
Mais tarde, apareceu, de uma vez, a mais de quinhentos irmãos, dos quais 
a maior parte ainda vive hoje, outros já morreram. Depois apareceu a 
'J'iago e em seguida a todos os apóstolos. Por fim, depois de todos, apa- 
receu também a mim Que não era mais que um feto morto. Também eu 
o vi, eu que sou realmente o menor dos apóstolos, que nem sou digno de 
ser chamado apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus. Mas unica- 
mente pela graça de Deus sou hoje o que a graça quis fazer de mim ; 
sou o que sou. Não foi pouco o que esta graça operou em mim.” 

Assim termina ou melhor, se interrompe a leitura da carta aos Co- 
rintios na Missa de amanhã. Digo, se interrompe, porque a narrativa 
evangélica que se segue é uma outra expressão da transformação que a 
graça de Deus realiza nos homens. 

O milagre de Jesus ao atravessar o território de Decápole fazendo 
com que o surdo-mudo tivesse seus ouvidos abertos e sua língua para 
falar é para tôda a humanidade um sinal de libertação, um sinal de novos 
horizontes eternos que se abrem para suas vistas, se êle souber abrir seus 
ouvidos para as verdades eternas que o Cristo lhe veio trazer. É bom 
(|ue se compreenda que quando Cristo opera um milagre desses e nós 
continuamos a ler tal narrativa durante séculos, o que se quer exprimir 
não é precisamente que o filho de Deus veio ao mundo para curar sur- 
dos-mudos. Se assim fôsse sua missão teria sido um imenso fracasso, e 
o filho de Deus não seria Deus. Seria uma imensa injustiça que curasse 
um surdo-mudo ou alguns leprosos quando milhões de outros surdos mu- 
dos e leprosos existiram no mundo em todos êsses séculos cristãos sem 
obter cura. Não, os milagres não existiram para o bem estar do mi- 
raculado. Lázaro ressuscitado acabou morrendo. Os milagres que exis- 
tiram e existem realmente são sinais mínimos da fórça de Deus capaz de 
nos ressuscitar a todos, não para essa vida natural, bem instalada, bem 
confortável, cercada de bein estar, mas para a vida sobrenatural da visão 
de Deus. Assim a cura do Evangelho encontra sua razão última, sua 
autêntica exegese, na Ressurreição, no mistério da vida eterna em Deus 


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CRÔNICAS 


RADIOFÔNICAS 


'que é a substância do Evan<feIbo, da boa nova, como diz S. Paulo, na 
Epístola. O Evangelho portanto não existe em primeira linha para a 
cura dos surdos-mudos ou para o conforto social, ou para a reforma 
agrária, ainda que tudo isso possa e deva constituir objeto de tôda a 
atenção e estudo, à procura de uma solução sábia. O Evangelho e Quem 
o prega tem uma mensagem de vida eterna, de ressurreição, de cidadania 
r.uma outra pátria, a celeste, diante do que todo o resto tem o sabor de 
um prato de lentilhas. 

(Transmitido a 17. <S. 1963) 

O AUXÍLIO QUE PEDIMOS A DEUS 

(XII.° DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES) 

‘d)cus in adiutorium meum intende. Domine ad adiuvandum me fes- 
tina.” É com estas palavras suplicantes do salmo que a liturgia do do- 
mingo de amanhã, XII." depois de Pentecostes abre a grande procissão 
de entrada no templo, procissão que é a nossa íntima procura de Deus no 
seu templo, que é o nosso ingresso, o nosso introito no lugar sagrado 
onde Deus faz sua morada terrena para seu encontro com a comunidade 
dos homens. 

‘•Q Deus vinde em meu socorro, apressai-vos. Senhor, em nie aju- 
dar” esta palavra exprime a ansiedade humana diante dos dramas que 
cercam a existência da criatura, mas ao mesmo tempo exprime todo um 
lastro de infinita confiança, de segurança, de fôrça que brota da fraqueza 
e que é a possibilidade real e concreta que tem a mesma criatura humana, 
em sua ansiedade, (’e ter ingresso no mais alto dos céus, de poder dizer 
com a mesma voz com que fala aos outros homens, aos seus semelhantes, 
de poder dizer a Deus que espera seu auxilio, que quer o seu socorro, 
(jue implora sua libertação. 

Esta prece (|ue brota violentamente espontânea do peito do salmista, 
do cantor do \'elho Testamento, terá cpie possuir a fôrça, o impulso imen- 
so 'de trans])or abismos para poder atingir o Deus de lavê em sua trans- 
cendência. Xão Importa, os homens santos dos tempos da Aliança do 
Sinai, os ])rofetas, os salmistas tinham essa audácia, êsse vigor humano 
de elevar sua voz a Deus como quem procura a face de um amigo, sa- 
bendo que, d(j momento (jue essa face se manifestasse, como ela é, a vida 
humana não subsistiria. Os homens 'de Deus do \’elho Testamento pe- 
diam o au.xílio do Criador com aQuela confiança de quem sabe que Deus 
já o procurou, já encurtou o caminho á sua procura, já o guiou através 
da terra estrangeira, já o guiou através do mar e através do deserto; já 
f) guiou sobretudo através dos vícios, das murmurações, das tentações de 
ingratidão, através dos apêlos da idolatria, e da atraçãq dos requintes de 
cutras civilizações que cercavam o povo de Deus. Estas solicitações 
vinham <’e povos que não eram de Deus e exerciam a função de desviar 
de seu caminho o próprio povo de Deus. Há uma segurança estupenda 
no homem de Deus que recorre àquele que o criou, que o procurou e que 


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CRÔNICAS 


RADIOFÓNICAS 


o quer salvar. No entanto é natural em qualquer, ser humano êste apêlo 
.10 poder divino. A presença do poder criador é universal e imlásfarçável. 
em tudo êle se manifesta: na matéria c no seu maquinismo, no miheral. 
no vegetal, no animal, no homem, animal pensante, em tudo que iio.'' 
cerca. “Acredita-se em Deus como se acredita no sol. Basta abrir o,'- 
olhos.” Razão porque essa oração simplíssima “Deus vinde em nieu s<j- 
corro, apressai-vos Senhor em me au.xiliar” é a oração universal de tôda 
a criatura humana qualquer que seja a sua fé, sua crença, o seu colorido 
racial, social ou político. Se por ventura essa criatura humana estiver 
positivamente engajada na religião às avessas da negação de Deus, não 
sei como seu facciosismo sectário lhe permitirá de se exprimir e.xterior- 
mente quando precisar do auxílio de seu Criador, não sei como conse- 
guirá travestir em termos de dignidade e protocolo ateístico seu irresis- 
tível apêlo à fonte de sua própria vida, seu recurso ansioso àquela que é 
senhor da vidla e da morte. Não sei como se exprimirá o ateu, princi- 
palmente quando se lhe deparar um momento de perigo iminente, de 
verdadeiro ponto de encruzilhada entre a vida e a morte, pelo qual todo 
o ser humano tem que passar. Não sei, disse, como se exprimirá em 
palavras, em gestos, em sussurro que seja, êsse impulso irrei)rimível da 
prece que faz mover inúmeras vêzes por dia os lábios dos homens de 
todos os tempos. Não sei como se manifestará exteriormente a prece 
proibida pelo orgulho, pela cega auto suficiência da razão endeusada, ou 
pela sociedade embrutecida no exercício dos usurpadores poderes totali- 
tários que não lhe' compete; mas a verdade inegável é que a prece não 
conhece impecilhos, verdade tão mais certa quanto de difícil verificação 
concreta. A verdade é que o fundo da alma humana exprimirá do íntimo 
de seu instinto religioso inextirpável a prece sem palavras : Deus que me 
creastes do nada, sinto que posso voltar ao nada. vinde em meu socorro, 
apressai-vos Senhor em me ajudar. Quanto mais não será esta a prece 
dos que presenciaram pela vista ou pela fé a descida do Füho de Deus 
até o meio dos homens. Os ouvidos de Deus, a solicitude de Deus em 
nos atender, o seu amor em se comover com nossos pedidos e com nossas 
misérias de homens são agora também os ouvidos de um homem como 
nós, a sensibilidade, a vontade, a afetividade, o coração de um homem 
como um de nós. Na Nova Aliança, portanto, com tanto maior razão, as 
palavras suplicantes do salmista vibram nos lábios cristãos desde o raiar 
do dia até as trevas da noite, no coro dos monges, nos caminhos, nas 
oficinas, nos quartos de hospital como nas salas de aulas. 

De ano em ano, a Liturgia resume tólas essas inúmeras e infinitas 
ocasiões reunindo num só canto de Introito em tôdas as missas que 
celebram na terra, no domingo de amanhã, essa palayra do Salmo que é 
o anseio da criatura humana que é o modular cantado da confiança do 
Cristão: “Deus in adiutorium meum intende: Domine ad adiuvandum 
me festina”. 

As palavras do salmista pedem ainda no trecho da Antífona do In- 
tróito: “confundantur et revereantur inimici mei qui quaerunt animam 


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CRÓNICAS 


RADIOFÓNICAS 


meam.’ Que sejam confundidos e Que temam aqueles que querem a per- 
dição de minha vida, aqueles que desejam o mal para meu destino. 

E aqui vemos o que pode significar para o cristão a palavra inimigo, 
n conceito de inimizade. Diriamos melhor que êsse conceito não existe 
mais para o cristão. Êle aprendeu definitivamente que desde que o Cris- 
to, Senhor e Deus, ofereceu sua vida pela vida de todos os homens, in- 
clusive e especialmente por aqueles que o crucificavam, pedindo para êles 
o perdão do Pai, não há mais homem que possa ser inimigo de qtieni 
quer que assuma nesta terra a herança da mensagem do Cristo. 

Todos os homens são amáveis, são objetos de amor, porque na ver- 
dade foram o objeto do maior, do mais perfeito e do mais puro dos 
amores. Se êles são maus. podem tornar-se bons, principalmente se fo- 
lem amados, não no que êles têm de mal que é apenas uma veste, uma 
capa que envelhece e deve ser jogada fora, mas no que êles têm de bom- 
O inimigo único que ainda existe, não é apenas nosso inimigo, é o ini- 
migo de Deus — estamos pois em boa companhia — é o Pai da mentira, 
é o espírito da impostura Que ladra em tórno aos homens, que influi na 
mente dos homens, que os engana, que os fere, que os torna mesquinhos, 
cruéis, complexados, doentes, despeitados, angustiados, ressentidos, ofen- 
."ivos, agressivos, embusteiros, histéricos, ladrões, assassinos, mentirosos, 
que é capaz de torná-los endemoniados — hoje coisa rara no sentido de 
possessão diabólica pois há processos bem mais simples e curriqueiros de 
escravizar o homem — inimigo, porém, que não é capaz de fazer apagar 
da humanidade a marca da Redenção, realizada pelo Cristo, não é capaz 
de destronar, de destruir a herança eterna de visão que o Cristo dá 
àqueles que pela Graça e com a Graça o quiserem seguir. O homem 
não é pois o inimigo, o mau espirito sim é o inimigo único de todos os 
homens, é dêle que pedimos ao Senhor que nos livre, que nos liberte, cmc 
nos proteja, quando oramos com a palavra do Salmista no canto do Tn- 
troito de amanhã. 

MADRE JOANA DOS ANJOS 

Já que falamos em possessão diabólica, ocorre-nos dizer uma palavra 
sóbre um filme que suscita debates no momento; Madre Joana dos An- 
jos — Servimo-nos da crítica que sóbre o filme emitiu em Julho de iQÓr 
o comentarista francês de “Informations CatholiQues Internationales.” 

“A grande astúcia do diabo, dizia Baudelaire, é a de fazer crer cjue 
êle não existe- Ê provável que se o grande poeta pudesse ver o filme 
“Madre loana los Anjos” pensaria do seu autor o polonês Ka^valero^vicz : 
“Com êste a astúcia do diabo terá sucesso.” Com efeito, o essencial do 
debate que pode existir sóbre o filme consiste em que o sobrenatural é o 
grande ausente desta história de religiosas possessas do demônio segundo 
uma novela poloneza (de Ivvaszkievvicz) que situa na Polônia, o lon- 
gínquo caso, e bastante deformado, das monjas de Loudun, na França, 
ocorrido na primeira metade do século i~. Explicou-.se claramente o 
autor Kíi^valerowicz em sua entrevista ao “Monde” de 2 de junho de 


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CRÓNICAS 


RADIOFÓNICAS 


1961 declarando que quisera “antes de tudo apresentar uma oijra hu- 
mana”, que sua “posição materialista é clara” e que para êle o drama 
de Madre dos Anjos é que ela “padece de não conhecer o amor humano 
do qual sente a necessidade”-. Falar de filme antireligioso ou ideológico 
não é justo, diz Kaiwalerowicz, pois o que êle quis fazer foi “uma obra 
artística que ultrapassasse largamente o problema religioso.’’ 

“Seus personagens não são representantes da religião, mas homen.s 
e mulheres com roupas eclesiásticas estilizadas que se deslocam em uma 
paisagem abstrata, de modo a fazer compreenoer seu caráter simbólico”. 

As excusas do autor são evidentemente de uma candura digna da 
autêntica madre Joana dos Anjos que, conforme conta a histtóna ver- 
dadeira, já com a idade de 10 anos estava numa escola conventual e dc 
lá saira diretamente para o convento. Como se pode apresentar uma obra 
humana, apenas humana, se se professa uma visão parcial ou oeformada 
do humano qual seja a visão materialista ? Isso se falarmos apenas do 
humano, quanto mais não será se o humano due é estudado e trabalhado 
esta de fato colocado, queira ou não o cineasta, num plano de vida, oe 
atividade, de concepção sóbre-humana, sobrenatural da existência ? O.-, 
homens e mulheres em habito eclesiástico que se deslocam em uma pai- 
sagem abstrata, conformee quer Ka\valer0|wicz, não pouem simbolizar 
coisa alguma para ninguém, senão um tipo de vida humana que só tem 
siigniticaoo no plano religioso e sobrenatural ; ora, se o autor e.xclui êsse 
plano e inclui outras forças puramente materiais, portanto desumaniza- 
das, seccionadas da integridade 00 contexto humano, para movimentar 
aquelas liguras abstratas, só poderá produzir verdadeiros monstros que 
serão a mais completa negação ao humano; sua mensagem só poderá ser 
uma disfarçada mas imensa impostura, uma mentira a enganar e impres- 
sionar plateias incautas. 

Ê certo que quem mente nunca dirá que está mentindo, de modo que 
o autor coloca diante dos espectadores algo de aparentemente neutro, 
certo de que o efeito solapante se produzirá inevitavelmente. 

Entre as críticas que apareceram sóbre sua produção, o próprio 
Kawaleroiwicz acha que a melhor, saida na Polônia, foi a de um semaná- 
rio catolico da (Jracovia, ona'e se diz com simpatia, que é natural an 
século XX, mesmo se não se crê no sagrado, de tratar de assuntos dessa 
natureza, que afinal apenas ilustram a luta eterna entre o bem e o mal. 
Mas não será fatal que os cristãos fiquem insatisfeitos ao verificar que 
0 sobrenatural no Qual crêem não encontra lugar na obra ? Sem exage- 
rar, penso que a estrita justiça exige mais, há aspectos dc certos pro- 
blemas que podem ser omitidos sem grande prejuízo da \'erdade. Ala.-, 
quando se omite, se ignora, se exclui a única explicação, a única signi- 
ficação de algo de extraordinário e excepcional, então a imagem que se 
dá daquilo é essencialmente falsa, monstruosa, idesonesta. 

O Comentador francês salienta a beleza artística da?, imagens, sua 
sobriedade, a simplicidade e intensidade da ação, a verdade os senti- 
mentos em personagens secundários que podem fazer esquecer 0 lado 
desagradavelmente espetacular das cenas de possessão. O estilo lembra 

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CRÔNICAS 


RADIOFÔNICAS 


J)rcyer e Hcrginau, íalta contudo sempre esta dimensão sagrada que 
éítes sabem introduzir em suas. cenas quando tratam de assuntos -dó 
mesmo gênero e que é essencial. É esta ausência, de!il)erada mas não 
menos deplorável, que se lamenta cm Madre Joana dos Anjos. Tratar de 
assunto religioso suprimindo o religioso é fazer obra a-religiosa e mesmo 
antireligiosa para o grande público, sem falar do contexto polonês atual. 
.\ idéia naturalista impregna o filme ide Kawalerowicz, mas se êste nega 
o sobrenatural no que êle tem de incompreensível, é preciso reconhecer- 
lhe a honestidade de ter apresentado do lado dos não possessos, dos per- 
sonagens secundários que são bons cristãos, ardorosos, profundamente 
humanos. Assim, o velho pároco que educa as duas crianças, os dois 
criados cujas orações cheias de fé e de caridade são emocionantes. Mas 
os outros, as religiosas possessas, os inúteis exorcistas, todos “ignorando 
o mundo”, como o teólogo que se deixa arrebatar de amor por Madre 
Joana e mata por amor a ela dois inocentes, na esperança louca de “ane- 
xar” a si os demônios e libertar a religiosa, todos parecem-nos tragica- 
mente mutilados e — de propósito ou não — <loloro.samente ridículos. Ti- 
vesse o cineasta sido um pouco mais fiel à verdadeira história de Madre 
Joana e não usaria da facilidade de entregar .seu papel a uma mulher 
bonita a cujo amor, tôdas as platéias compreenderão que alguém possa 
dificilmente resistir. Estivesse ali a verdadeira áladre Joana como a 
conhece o historiador Bremond: doentia, espírito complicado, com forte 
tendência para a histeria, inclinada á simulação, egocêntrica, e.xibicio- 
nista, feia e meio aleijad^e tornar-se-ia inverossimil e irrealizável a tese 
materialista do arrebatamento do amor carnal. 

A única religiosa não “possessa’ é a irmã rodeira, que frequenta a 
estalagem, mistura-se com os homens e se entrega ao nobre que a seduz. 
Se isso fôsse real, seria a línica verdad'eiramentee complexada e com 
neurose de angústia.. 

As impressões do espectador são pois anti-religiosas, ,se .se deixar 
enganar pelo embuste. 

O rabino ^ue dialoga com o teólogo sôbre os demônios só pode que- 
rer dizer que tôdas as religiões se equivalem e são inúteis, só o amor 
humano está na origem do bem e do mal. 

O autor faz com que o teólogo e a Madre paguem concretamente e 
naturalisticamente o tributo à sua tese que tem perfeita aplicação a tô- 
das as otitras personagens que tiveram a ousadia de querer amar a Deus 
e ao próximo, como o Cristo os convidou especialmentee a fazer, na in- 
tegridade do amor virginal. Não é de se estranhar que o autor materia- 
lista seja impermeável a essa dimensão sobrenatural do amor humano. 
O próprio Cristo nos diz a respeito dêsse grande amor ejue leva a um 
grande sacrifício por causa do reino dos céus: quem o puder compreen- 
der que o compreenda. Discorrer sôbre êle, ignorando-o, é dar a dolorosa 
exibição de errar às cegas por caminhos cheios de luz e de esplendor, de 
passear a própria mesquinhês em meio à magnanimidade e à magnifi- 
cência divinas, exibir o próprio desasseio em meio à limpidez dos linhos 


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CRÔNICAS 


RADIOFÔNICAS 


do banquete de purificação que o Cristo prepara para os que o amam e 
que pagam nesta vida o preço da cruz : do sacrifício e, às vêzes, da in- 
compreensão. 

Terminamos èsse nosso programa de hoje com o canto do Agnus Dei, 
êsse canto em que se invoca a pureza imaculada do cordeiro que dá sua 
vida, que derrama seu sangue para que se apaguem os pecados c'o mundo. 
Por 3 vêzes o invocamos, nas 2 primeiras pedimos Que tenha piedade de 
nós, na 3.^ e liltima imploramos que nos dê a sua Paz. 

I 

(Transmissão de 24.8.1963) 


CANTO GREGORIANO 
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Direção: D. João Evangelista Enout O.S.B. 

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